Quando tentam carimbar o rótulo de produção infantojuvenil em “A Família Dionti”, o diretor Alan Minas (que, de mineiro, só tem o sobrenome, já que é carioca de origem) explica que “poesia não tem idade”, apontando para um dos caminhos seguidos pelo longa-metragem, uma das estreias de hoje nos cinemas.
 
Ao falar de um garoto interiorano que se apaixona por uma menina do circo e começa literalmente a derreter, “o filme traz a poesia, a metáfora, a metonímia e as figuras de linguagem, que são apreendidas de acordo com a sensibilidade de cada um, dialogando com determinadas faixas etárias em vários níveis”, nas palavras do diretor.
 
Filmado na região de Cataguases, “A Família Dionti” mistura elementos realistas e oníricos. “O realismo está no tempo do interior, na palavra, no silêncio e no jogo com o elenco, que apresentam o tempo do mineiro ao falar, de sua prosa. Mas conforme o filme avança, surgem elementos de fantasia e memória”, explica Alan.
 
Ele registra que é essa memória que permeia a narrativa, transitando de um campo a outro, prescindindo de explicações do que é sonho e do que é realidade. Tanto é assim que, quando as memórias tomam o primeiro plano, o diretor abre mão de usar recursos comuns no cinema, como saturação de cor ou qualquer informativo de som.
 
Essa opção se transforma, para Alan, num convite para que todos entrem na história, contribuindo com a sua participação e background. “A concepção do filme é a da sedução, de fazer-nos voltar à lógica da infância, do artista e do louco, com uma sensibilidade que nos permite perceber muito do que está ao nosso redor, pois dispomos mais do que os cinco sentidos”.
 
A natureza deixa de ser um mero pano de fundo para ganhar a potência de protagonista, através dos quatro elementos – terra, água, fogo e ar. Eles estão estampados nos personagens. O garoto que conduz a história se derrete gradualmente, simbolizando a água. O irmão chora areia, ligado à terra. E o pai trabalha numa olaria.
 
O ar tem papel determinante, por meio da menina do circo. “Ela é como o vento, que mudará toda a rotina da família”, destaca Alan. Pode parecer hermético, mas o filme tem uma linguagem fácil. “O que faço é ir no caminho contrário ao cinema americano, que diz o que sentir, quando sentir e o que pensar”.