De prostituta a braço direito de Jesus Cristo. A história de Maria Madalena é uma das grandes reviravoltas na interpretação dos fatos bíblicos. No filme que leva o nome da personagem, com estreia amanhã nos cinemas, Maria (Rooney Mara) é a protagonista, aparecendo na icônica cena da Santa Ceia ao lado do filho de Deus, em substituição à figura masculina de João.
 
Mestre em Ciência da Religião, Ana Freire registra que a mudança de perspectiva sobre Maria Madalena é mais uma maneira para que a teologia e a História sejam repensadas, permitindo surgirem perguntas sobre as relações de poder que existiam à época do Cristo. “Desde o movimento sufragista, mulheres se colocam diante das Sagradas Escrituras com suas suspeitas e questionamentos, revendo e reescrevendo a teologia”, observa.
 
No filme, o apóstolo Pedro chega a reclamar com Maria da razão de ela ter sido a única a ver Cristo após a ressurreição. Em várias cenas, somente Maria parece compreender totalmente os propósitos Dele. 
 
Para antropólogo e coordenador do curso de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Emerson Silveira, é preciso relativizar essa ideia presente no filme. “Talvez possamos dizer que ela compreendeu os propósitos de Jesus de uma maneira singular e específica”, afirma.
Freire destaca que, segundo a história, o título de prostituta foi dado a Maria Madalena pelo Papa Gregório Magno, quando esse tentava levar os fieis ao arrependimento para remissão dos pecados. “Essa narrativa ganhou força e a imagem de Maria Madalena, ainda hoje, é atrelada a de uma prostituta”, lamenta.
 
Com a base numa leitura em que os sete demônios saídos do corpo dela, presente no Evangelho de Lucas, que não estariam ligados aos prazeres da carne, mas sim à busca de uma cura completa, o filme mostra uma personagem atormentada e inconformada com o destino que seus familiares querem dar a ela. “A imagem como prostituta está ligada a questões históricas muito complexas em um espaço temporal muito largo. O que é possível dizer é que, de fato, a figura independente e bela de Maria Madalena foi ‘moralizada’, enquadrada em determinadas concepções de moral e costume”, analisa Silveira.
 
Santa Ceia
Sobre a participação de Maria na Santa Ceia, não há dúvida de que se trata de especulação. “Os questionamentos são vários e uma boa hipótese recai sobre a importância mais política do que religiosa da obra. Assim, revelar que Maria Madalena estava à direita de Jesus poderia não caber nesse contexto político”, diz Freire.
 
Já Silveira sublinha que a imagem de Madalena ao lado de Jesus foi propagandeada há alguns anos pelo livro “Código Da Vinci” e é uma mera especulação história com escassa prova verídica. “Todavia, a Sétima Arte, assim como todas as outras, não depende de dogmas e autorizações teológicas para criar e trazer poesia. A arte cria e inventa belas realidades que passam a existir por si mesmas”.
 
 
Leia as entrevistas completas com os entrevistados Ana Freire e Emerson Silveira:
 
 
ANA FREIRE / Mestre em Ciência da Religião
 

O que representa, dentro da Igreja, um filme como "Maria Madalena", que mostra a personagem como o braço direito de Jesus e a única a realmente compreender seus propósitos? 

O cinema tem o poder de dar visibilidade a pessoas, temas e causas. Entretanto, em pleno século XXI não é possível afirmar que essa é uma iniciativa inovadora. Desde o movimento sufragista, também conhecido como a Primeira Onda Feminista, mulheres se colocam diante das Sagradas Escrituras com suas suspeitas e questionamentos, revendo e reescrevendo a teologia. Foi em 1895, que Elizabeth Cody Stantos publicou, nos Estados Unidos, A Bíblia da Mulher (The Woman’s Bible), considerada um marco do fazer teológico feminista. À época, o projeto fora considerada por muitos como uma obra satânica. Mas, apesar das críticas muitas mulheres compreenderam a Bíblia da Mulher como expressão de seus sofrimentos, de suas lutas. Por isso, ao pensar sobre o impacto desse filme dentro da Igreja, faz-se necessário perguntar sobre que Igreja estamos falando. Já houve um avanço considerável em igrejas protestantes históricas e, também, na católica apostólica romana. Entretanto, já existem movimentos cristãos espalhados pelo mundo todo, no qual a leitura crítica das Escrituras é feita há décadas. O método crítico feminista coloca sob suspeita as verdades consideradas como incondicionais e trás elementos históricos, científicos, arqueológicos e crítico-textuais para rever os textos canônicos. Assim, Maria Madalena é mais uma maneira de que a teologia e a história seja repensada, permitindo que sejam feitas perguntas sobre as relações de poder que existiam à época do Cristo.

 

Este tipo de mudança de perspectiva tem uma motivação e uma delas pode ser o empoderamento da mulher hoje?

A mulher se empodera há décadas, desde o movimento sufragista, pelo menos, ela reivindica um lugar na sociedade que não seja o de ser humano de segunda categoria. A mídia tem se aliado a esse público crescente, não como a grande coadjuvante, mas compreendendo o empoderamento feminino como mais um mercado a ser explorado. Um bom exemplo de produção nessa corrente de pensamento é a série Juana Inês, sobre a freira Juana Inês de La Cruz, que viveu no século XVII, considerada como sendo a primeira teóloga feminista da América. Sua história de luta e resistência contra o sistema eclesiástico católico serve de inspiração ainda hoje e, também, de mercado para essas mulheres que querem ser vistas e ouvidas.

 

Por que Maria Madalena foi transformada numa prostituta? Havia um contexto histórico para isso acontecer?

Segundo conta a história, o título de prostituta foi dado a Maria Madalena pelo Papa Gregório Magno, quando esse tentava levar os fieis ao arrependimento para remissão dos pecados. Essa narrativa ganhou força e a imagem de Maria Madalena, ainda hoje, é atrelada a de uma prostituta. Sobre Madalena, no Evangelho de Lucas 8, 1-3 é dito que dela haviam saído sete demônios. A ideia de demônios, à época de Gregório Magno, era intimamente ligada aos prazeres da carne. Entretanto, quando foi escrito, os judeus acreditavam que demônios estavam ligados a doenças, por isso a expulsão de sete demônios poderia implicar em uma cura completa de Maria Madalena.

 

Na famosa cena da Santa Ceia, ela estaria a direita de Jesus. Há evidências para isso ou se trata de uma licença poética dos realizadores?

Especulações. “A última ceia”, de Leonardo da Vinci, de 1497, apresenta várias teorias não somente sobre Maria Madalena como sendo a discípula mais próxima do Mestre, mas outras inquietações seguem a obra: onde está o Santo Graal? Onde está o cordeiro da Páscoa? Seria Pedro o traidor verdadeiro, pois portava uma adaga? Os questionamentos são vários e uma boa hipótese recai sobre a importância mais política do que religiosa da obra. Assim, revelar que Maria Madalena estava à direita de Jesus poderia não caber nesse contexto político. Uma boa explicação é que seja realmente o apóstolo João, pintado como figura feminina, porque à época renascentista, a pureza estava ligada ao feminino. O importante nesse exemplo de da Vinci é permitir a dúvida não em um embate contra a fé, mas a favor da fé, pois os mistérios também são de Deus.

 

Alguns estudiosos chegam a dizer que ela teria sido mulher de Jesus. O filme não mostra isso, apenas um ciúme de Pedro por ela ser a escolhida de Jesus para enviar a mensagem final. É uma possibilidade concreta?

Alguns evangelhos apócrifos, como o de Felipe, caminham nessa direção, ao narrar beijos entre Jesus e Maria Madalena. A intimidade entre os dois facilmente seria compreendida hoje como um casamento. Entretanto, prevaleceu na história do cristianismo a ideia de um Jesus casto e puro. Isso tem grande impacto na maneira como os fieis cristãos vivenciam sua fé, afinal o corpo foi compreendido como mal e a sexualidade fora considerada pecado. O pecado da carne. Essas implicações, ao meu ver, devem ser mais discutidas do que se Jesus foi ou não casado, pois a tradição condenatória da carne traz sofrimento até os dias atuais. Um exemplo são os homossexuais, que passam a ser erotizados e por isso condenados por suas práticas sexuais divergentes.

 

Há outros personagens na Bíblia que poderiam seguir o mesmo caminho?

A Teologia Feminista está implicada em rever essas histórias que foram silenciadas ou ocultadas dos livros oficiais. Muitas foram as seguidoras de Jesus que auxiliaram seu ministério, inclusive financeiramente. E mais, muitas são as atuais seguidoras de Jesus que levam em seus corpos a dureza e a aridez da vida. Rever essas histórias e contá-las é dar visibilidade àquelas que são a maioria das seguidoras do cristianismo. Conclusão: ao assistir "Maria Madalena, o importante é que pensemos mais a respeito de nós mesmos do que em Jesus ou em Maria Madalena. É um momento para repensar nossos preconceitos e, também, nossa fé. Baseada em quê está a nossa fé? No “está escrito” ou no chão da vida? A vida deve ser, e é, maior do que o livro.

 

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EMERSON SILVEIRA / Coordenação do curso de Ciência da Religião da UFJF

 

O que representa, dentro da Igreja, um filme como "Maria Madalena", que mostra a personagem como o braço direito de Jesus e a única a realmente compreender seus propósitos? 
 
Para começar a resposta, a apreciação de um filme como "Maria Madalena" depende da visão de mundo dos diversos movimentos e grupos que compõem a igreja católica. Para grupos mais reacionários e conservadores, o filme é visto como herético e desviante. Para grupos mais moderados e progressistas, a avaliação tende a ser mais positiva. O importante é que na Sétima Arte os filmes possuem vida e dimensões específicas, que não estão subordinadas à teologia e a bíblia​. ​​Os rumos que a arte tomou no Mundo Ocidental​ foram de autonomia​. Por fim, penso que deve relativizar​-se​ a ideia de que ela teria sido a única a realmente compreender seus propósitos. Talvez possamos dizer que ela compreendeu os propósitos de Jesus de uma maneira singular e específica.....
 
Este tipo de mudança de perspectiva tem uma motivação e uma delas pode ser o empoderamento da mulher hoje?
 
Pode, mas estamos nos movendo no terreno das hipóteses. Filmes com protagonismo feminino têm sido comuns há décadas e possui relação com o movimento de ascensão das mulheres, desde as sufragistas do final do século XIX ao começo do XX ​até os muitos tipos de movimentos feministas do século XX e XXI. Todavia, um filme que trata ​da mais importante ​figura da religião cristã​ (Jesus​)​, dando protagonismo a um personagem feminino, como Maria de Madalena, de uma forma aberta e imaginativa, é um dos primeiros.
 
Por que Maria Madalena foi transformada numa prostituta? Havia um contexto histórico para isso acontecer?
 
A pergunta embute um pressuposto que não é historicamente exato, a saber, Maria Madalena ​vista como ​prostituta.​ É possível que essa visão tenha tido alcance em alguns momentos históricos, mas a narrativa bíblica a mostra como uma mulher que​ teve alguns maridos. É preciso cuidado também com as traduções do texto sagrado. O texto bíblico percorreu um longo caminho até chegar até nós: num primeiro momento os relatos orais em aramaico e hebraico foram registrados por escrito, e dentre as línguas usadas estava a grega , num segundo momento, isso foi re-traduzidos para o latim e daí, num terceira tradução, para outras línguas. Imagine você as nuances e tônicas que cercam a tradução do texto. Todavia, a imagem de Maria Madalena como prostituta está ligada a questões históricas muito complexas em um espaço temporal muito largo. ​É possível dizer​, de fato, ​que ​a figura independente e bela de Maria Madalena foi "moralizada", enquadrada em determinadas concepções de moral e costume. No pequeno espaço ​de uma reportagem de jornal, não dá para formular uma resposta exclusiva ou sacar uma palavra de ordem (por exemplo, a "culpa" é da Igreja Católica), pois do contrário incorreria em distorções ​históricas ​que mais atrapalhariam do que ajudariam a elucidar esta fascinante personagem religiosa, histórica e artística.
 
Na famosa cena da Santa Ceia, ela estaria a direita de Jesus. Há evidências para isso ou se trata de uma licença poética dos realizadores?
 
Em geral, essa informação é apontada por especialistas como sem fundamento do ponto de vista histórico. A imagem de Maria Madalena ao lado de Jesus foi propagandeada há algunas anos pelo livro Código Da​ ​Vinci e é uma especulação história com escasa prova verídica. Todavia, a Sétima Arte, assim como todas as outras, não depende de dogmas e autorizações teológicas para criar e trazer poesia​ para as nossas vidas​. A arte cria e inventa belas realidades que passam a existir​em​ por si mesmas, basta ver​mos​ os romances, as pinturas, as músicas, as danças.
 
Alguns estudiosos chegam a dizer que ela teria sido mulher de Jesus. O filme não mostra isso, apenas um ciúme de Pedro por ela ser a escolhida de Jesus para enviar a mensagem final. É uma possibilidade concreta?
 
Aí está a sutileza do filme, pois não endossa a ideia de alguns estudiosos, sem muita comprovação histórica real, de que Madalena teria sido a mulher de Jesus. Como possibilidade, a existência de ciúmes e tensões entre os seguidores de Jesus é imaginável. Portanto, é perfeitamente possível a especulação de que entre Maria e Jesus, teria havido um laço mais forte. Por fim, observo que a escritura e tradição cristã conferem a Maria Madalena, e as mulheres, um papel privilegiadíssimo, o papel de primeiras testemunhas do túmulo vazio e, por conseguinte, da ressurreição de Jesus. Para João foi somente uma: "Maria Madalena" (João 20, 1). Para Mateus, duas: "Maria de Magdala e a outra Maria" (Mateus, 28,1). Para Marcos, três: "Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé" (Marcos 16, 1) e, por fim, para Lucas, um grupo: "as mulheres que tinham vindo com Ele da Galileia" (Lucas 23, 55).
 
Há outros personagens na Bíblia que poderiam seguir o mesmo caminho?
 
Em termos femininos sim e​, diga-se de passagem,​ muito poderosos. Uma dos exemplos que mais gosto é o de Judit​e que, para salvar seu povo do iminente assédio e invasão assíria, seduz e decapita o general Holofernes, braço direito do poderoso rei Nabucodonosor, que reinou por volta de 150 a 200 A.E.C.. A história é contada no livro​ de​ Judite, ​no Antigo Testamente, com destaque para a coragem, perspicácia e ousadia ​femininas. Em 1599, o artista italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio, em plena Renascença, pintou a cena de Judite decapitando o general Holofernes com o auxílio de uma serva. O quadro é um dos mais belos e impactantes da gigantesca produção artística renascentista italiana que, diga-se de passagem, teve o apoio decisivo da Igreja Católica. Entre 1508 e 1512, a pedido e encomenda do papa Julio II (1443-1514), Michelangelo Buonarroti (1475-1564), pintou o texto da Capela Sistina foi pintada com a técnica do afresco. Os laços entre religião ​e arte são complexos e não podem ser reduzidos a uma oposição  simplório e absoluta.