Marcelo Gomes exibe uma voz rouca, quase inaudível. Desde quando a organização do Festival de Berlim anunciou “Joaquim” entre os filmes concorrentes de sua 67º edição, na terça passada, o cineasta pernambucano não parou mais de dar entrevista.

“Uma das grandes maravilhas é ser convidado para um festival desse tamanho e importância, o que traz uma visibilidade grande para um filme de orçamento pequeno. Essa divulgação é fundamental para a gente”, observa Marcelo.

Para os mineiros em especial, há um outro motivo para comemorar: na telona da Berlinale estará a história não de um Joaquim qualquer, mas a de Joaquim José da Silva Xavier, que entrou para a história como Tiradentes.

“Meu objetivo foi fazer uma crônica social do Brasil colônia e não uma novela. Interessava-me mais o cotidiano desse relato histórico (sobre a Inconfidência Mineira)”, que levou nove anos para tirar o longa-metragem do papel.

Os atrasos de cronograma ocorreram principalmente pela saída de um investidor espanhol. “Foi bom para ganhar um tempo de leitura, instrumentalizando o roteiro para o lugar que queria chegar”, destaca.

Duro e difícil
Esse “lugar” a que Marcelo se refere está explícito na estética de sua produção, que vai na contramão dos filmes históricos, “de fórmula mais clássica, com uma direção de arte carregada e um passado glamourizado”. 

O Festival de Berlim acontecerá de 9 a 19 de fevereiro, na capital alemã. A última vez que uma produção brasileira disputou o Urso de Ouro foi em 2014, com “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz

O realizador usa palavras como duro, difícil, precário e sujo para definir o filme. “Quis desconstruir o formato clássico para chegar no humano e não no mito. Recorro à câmera na mão para me ajudar a achar o essencial”.

O foco de “Joaquim” é a tentativa de perceber o momento da criação de consciência política de Tiradentes, quando resolveu que era hora de desobedecer, como soldado, o seu juramento à Coroa portuguesa. 

Para isso, Marcelo precisou se valer da imaginação, já que não há qualquer registro histórico sobre a época que não seja os Autos da Devassa. “Continuamos como colônia por quase 100 anos e a história foi abandonada”, explica.

O cineasta lembra que Joaquim Xavier só foi alçado à condição de mito a partir da proclamação da República, em 1889. “Eu inventei a história baseando-me em textos sobre a sociedade brasileira daquela época”, afirma.

No papel principal está Júlio Machado, mais conhecido do universo teatral (“É talentoso e carismático”, elogia Marcelo). O elenco também é composto por atores de Minas, como Rômulo Braga, que faz o fiel escudeiro de Tiradentes.

Também compõem o elenco quatro integrantes do grupo Galpão – Eduardo Moreira, Chico Pelúcio, Antonio Edson e Paulo André. As filmagens aconteceram em 2015, em Diamantina, que, por sua diversidade de paisagens, tomou o lugar de Ouro Preto.

MARCELO GOMES, diretor de Cinema, cineasta

MARCELO GOMES – “Cada vez que leio sobre o Brasil colonial, consigo entender as nossas mazelas de hoje”, diz cineasta


Diretor diz que Brasil atual está muito presente em ‘Joaquim’

Apesar de dirigir seu olhar para um tempo específico de nossa História, Marcelo Gomes assinala que o Brasil atual está bastante presente no seu filme.

“Deixo para cada espectador tirar essa reflexão, mas, cada vez que leio sobre o Brasil colonial, consigo entender as nossas mazelas de hoje”, registra.

Para o realizador pernambucano, os nove anos envolvidos na produção foram determinantes para criar essa percepção. “É preciso voltar ao passado para entender o presente”, sublinha.

Marcelo observa que vivemos discutindo política, mas de uma maneira leviana e superficial. “Lá atrás essas discussões estavam presentes de forma mais consistente”, compara.

Espelho de fora
O diretor lembra que hoje ainda persiste uma confusão entre colonizado e colonizador, comum na época. “Joaquim Silvério tinha pai português e ele se dizia português”.

E ressalta que muitas pessoas dizem que os brasileiros só mudaram de país para espelhar, pois, depois dos portugueses, foram os franceses e os americanos. “Nunca espelhamos o próprio Brasil”, lamenta.