“Um dos pilares da compreensão deste biografado chamado Brasil é a questão racial, que é pouco discutida e pouco notada, quase invisível”. A afirmação da historiadora Lília Moritz Schartws é um dos fios condutores para entender o magistral esforço concentrado em sua recém lançada obra “Lima Barreto- Triste Visionário” (Companhia. das Letras).

Com mais de uma década de pesquisa em torno deste tema, a pesquisadora encontrou no escritor carioca do início do século XX–negro, polêmico, genioso e genial– um objeto urgente e atual. “É importante não ler o biografado com nossas lentes”, ela diz, “mas a atualidade de Barreto se impõe. Um escritor que denunciava a corrupção e o mau uso dos bens públicos na república, assim como o jornalismo conformado com o interesse de alguns poucos grupos, além de abordar questões como o feminicídio e, evidentemente, o racismo”.

A autora no entanto, deixa claro que por mais sedutor possa ser a aproximação de Barreto com os dias que correm (e corroem) o Brasil de hoje, a obra não é um “exercício de exaltação” ao biografado. “O que tento fazer é uma espécie de diálogo com ele; afinal convivi com Barreto por mais de dez anos”, diz, referenciando o tempo gasto na pesquisa. “Nesse trajeto, o personagem ganha corpo, você se emociona, sente orgulho, desgosta de alguma coisa. Quis capturar o sujeito, inclusive suas contradições”, garante. Contradições que não são poucas, o que posiciona Lima Barreto como um dos personagens mais ricos da cultura nacional.

Relevância

Filho de um pai monarquista, foi graças aos contatos do pai com altas patentes que o escritor conseguiu ter acesso à educação. Funcionário público, suas primeiras incursões pela escrita foram via jornalismo, escrevendo crônicas. Este ambiente inspirou “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” publicado em 1909. Em 1911 publicaria “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, possivelmente sua obra mais célebre. Pouco depois lidaria com internações em hospícios e a luta contra o alcoolismo. Tentou e foi preterido algumas vezes entrar na Academia Brasileira d e Letras.

De alguma forma, foi um autor obscurecido e criticado por muito tempo, por suas opções éticas e estéticas. “Ele definia o projeto literário dele como uma literatura militante, impactada com o momento de então”, diz a autora. “Logo que ele morreu, em 1941, houve uma espécie de condenação moral, que vinculou sua vida errática à sua obra”. Taxado por nomes de respeito como Sérgio Buarque de Hollanda como um escritor sem imaginação, Barreto não teve a recepção que deveria ter. A biógrafa de alguma forma tenta corrigir isso. “É importante ele ter entrado em voga, como é importante ele entrar no cânone da literatura nacional”.