Até que ponto nossa rotina é capaz de nos aprisionar? Essa é uma das reflexões levantadas pelo Grupo Cultura do Guetto no espetáculo de dança “Exit”, que fica em cartaz hoje e amanhã no Teatro Bradesco.

Explorando questões como escolhas, cotidiano e liberdade, o coreógrafo Gladstone Navarro destaca que o objetivo da produção é levantar questionamentos, sem apontar o que é certo ou errado. “A gente leva para o palco esse sistema de estudar e trabalhar até morrer. Essa rotina diária em que fazemos as mesmas coisas que os nossos pais. É como se estivéssemos sendo criados da mesma forma, como uma criação em série. Essa é a provocação que colocamos: até que ponto isso é verdadeiro e não é”, explica.

Ele conta que a produção do espetáculo começou em 2016, quando o grupo decidiu pesquisar e buscar elementos que definissem a linguagem da montagem. “É uma obra que tem muito peso, por causa de sua própria eloquência. Não é um trabalho tão fácil, não tem só o lado da dança, tem outros elementos”, explica que ele, citando a relação dos bailarinos com o próprio cenário, que inclui mecanismos criados por eles mesmos. “Em uma parte, chegamos a trabalhar até mesmo como contra-regras. Se a gente não se concentra, não conseguimos fazer isso”, diz.

“Exit” é a primeira produção do grupo, que foi criado em 2006 e, inicialmente, era voltado para festivais competitivos. “Até 2014, fomos um grupo de competição. Conseguimos ganhar por duas vezes o Festival Internacional de Hip Hop, o maior do Brasil, entre outros prêmios importantes”, conta Navarro.

Depois de abrir a iniciativa para novos integrantes, em 2007, e criar um projeto de formação de bailarinos em 2011, o projeto cresceu e daí começaram a surgir inquietações que culminaram na produção. “Fomos vivenciando várias coisas. Toda vez que competíamos, as pessoas falavam que precisávamos pensar maior. A partir disso, começamos a criar essa inquietação”, elucida Navarro.

Ele ressalta, porém, que apesar dos novos rumos, o grupo permanece competindo também. “Não tinha motivo para fazer uma coisa e parar de fazer a outra. Agora tempos o grupo artístico e também o grupo de competição”. Pela primeira vez na programação do Verão Arte Contemporânea, ele elogia a presença da cena de dança urbana da capital. “O festival acaba mostrando para cidade inteira como uma cultura marginalizada, que sofre muito preconceito, está organizada e bem desenvolvida”, pontua.

Serviço: “Exit”, hoje e amanhã, às 20h, no Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2244 – Lourdes). Ingressos: R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia)