Aos 60, 70... 90 e tantos anos, eles conseguem manter o impulso de atores, diretores e produtores profissionais. Disciplina para ensaios, empenho para pesquisa de roteiro e de figurino, além de habilidade para gerir a agenda de compromissos. Mesmo que a entrada seja sempre de graça, idosos de BH procuram fazer com que o teatro vá muito além da terapia.
“Não somos do ‘já que’”, avisa a psicóloga aposentada e atriz do “Grupo Nós de Teatro”, Marcia Portugal. “Já que está aposentado, vá fazer teatro”, acrescenta.

Dar o melhor de si parece mesmo ser a filosofia da turma. Os integrantes se encontram toda quinta-feira na Igreja do Carmo. O início foi em 2009, e hoje o grupo conta com 17 integrantes.

Perto do palco, a professora de teatro Ana Amélia Cabral dá dicas para as expressões: feliz, sensual, insana. Os alunos se entregam, se divertem. “Assumimos o compromisso com a cultura e a arte”, frisa Marcia, que também cuida da agenda da trupe.

Até agora, eles têm cinco peças. “Nós em Pessoa” é a mais pedida nos convites que recebem para apresentarem. “É ambientado em uma tabacaria, com cenário e tudo”, diz Ana Amélia, sobre a montagem que resgata a obra do escritor Fernando Pessoa (1888-1935).

Diretor de peso
A mesma “pegada” profissional é buscada pelo “AEA em Cena”. Textos da dramaturga Maria Clara Machado, com temas sobre radionovela e teatro de revista.

Tudo serve de inspiração para as peças do grupo, que faz parte do Programa Viva a Vida, dos aposentados da Cemig. “As senhoras se vestiam de vedetes. Mesmo amadoras, conseguíamos tirar expressividade delas”, lembra o tarimbado diretor e produtor de teatro Pádua Teixeira.

Em 30 anos de carreira, foi a primeira vez que Teixeira dirigiu idosos – 40 ao todo. Aos 58 anos, ele tem trabalhos festejados pelas bilheterias mineiras, como na direção das peças “Velório à Brasileira” e “Nas Ondas do Rádio”.

Tributos pós-modernos
Quando os alunos da turma do teatro do Grupo de Estudos do Envelhecimento (Green) se apresentaram para os filhos e netos, em uma peça-tributo a Raul Seixas, a reação foi única: queixo caído. “Os próprios familiares não sabem dos talentos que essas pessoas têm”, diz o diretor artístico Sérgio Lima.

Tributos a Noel Rosa e Gonzaguinha também já entraram nas produções do Green, que tem 15 integrantes, de 65 a 85 anos. Nele, os próprios atores pesquisam e roteirizam o que encenam. “Vamos ensaiar a peça ‘Sociedade Alternativa’, sobre consciência ambiental, com textos deles”, diz Lima. A turma volta a se reunir na próxima semana, sempre às quintas, às 10h, no Centro Cultural Padre Eustáquio (rua Jacutinga, 821).