O fotógrafo Paulo Lacerda tinha acabado de sair do estacionamento do Palácio das Artes, por volta das 11h, e, ainda na avenida Afonso Pena, ouviu no rádio a informação de que o Grande Teatro estava em chamas. Ele observou as pessoas nas ruas, que “pareciam zumbis, olhando para cima, com o fogo comendo”, e imediatamente fez meia-volta, encontrando o choro e o desespero dos funcionários. “Foi uma das cenas mais tristes que vi na vida”, recorda.

O incêndio de um dos maiores palcos de Belo Horizonte aconteceu há duas décadas, em 7 de abril de 1997. Os bombeiros levaram dois dias para apagar o incêndio e, após uma grande mobilização, feita por governos e sociedade, um novo teatro, mais moderno, foi construído. A questão da segurança se tornou uma obsessão na autarquia que gere o Palácio (“falou em incêndio, todo mundo arrepia”, diz uma funcionária) e também para outras casas de espetáculos.

Kátia Carneiro, há dois anos diretora de planejamento, gestão e finanças da Fundação Clóvis Salgado, observa que os cuidados foram redobrados “após um evento tão traumático”. Hoje, há 50 brigadistas e objetos cênicos como velas e cigarros são terminantemente proibidos. “Somente se forem os eletrônicos”, salienta Kátia. Aparelhos usados pelas produções são checados por um eletricista, que cuida exclusivamente do palco.

A causa do incêndio ainda é desconhecida, mas acredita-se que tenha sido uma bituca de cigarro ou uma faísca que caiu, propositadamente ou não, sobre uma das poltronas do teatro. “Naquela época, tudo era bonito, grande, mas as cadeiras não eram de material antichamas. Acho que era assim em todos os teatros”, registra Paulo. Após os bombeiros debelarem o fogo, o fotógrafo foi ao local, enxergando apenas ferros retorcidos no que antes era um dos maiores teatros da cidade, com 1.700 lugares. 

 

Palácio
Fogo teria começado em uma das poltronas; hoje elas são de material antichamas 

 

Mudança de postura
O triste episódio serviu como um marco, especialmente para os teatros inaugurados posteriormente. No Bradesco, pertencente ao Minas Tênis Clube e aberto ao público em 2013, foram investidos R$ 200 mil em segurança, de acordo com o diretor de cultura do espaço, André Rubião. Anualmente, são destinados à manutenção dos equipamentos de segurança outros R$ 20 mil. 

A palavra mais ouvida ali é “anti”, com camadas retardantes de fogo nas partes de madeira e metálicas. Os tecidos do palco recebem também um tratamento chamado de ignifugação. “O fogo jamais começará nelas, podendo vir de outros lugares, mas também sofrerá um atraso”, explica o coordenador técnico Bruno Cerezoli.

Por sinal, todos os tecidos de cenários que chegam ao palco devem ter esse tratamento. “Mas se não tiverem e forem importantes para o espetáculos, temos que nos adaptar e entramos na gestão de risco, com um brigadista próximo do local e com extintor à mão”, diz Bruno. 

Outros Cuidados
Um dos maiores alvos de reclamação é quando o teatro solicita aos técnicos das produções para usarem sapatos fechados e calças durante a montagem. “Eles reclamam, mas não permitimos chinelo, sandália ou bermuda. Se uma ferramenta cair, pode decepar um dedo”, afirma o coordenador.

Casa da Ópera
Interditada há dois anos e meio pelo Corpo de Bombeiros, a Casa da Ópera, em Ouro Preto, reabrirá as portas neste sábado. O fechamento ocorreu por causa de uma viga de madeira que estava podre, mas, mesmo depois da correção do problema, o mais antigo teatro em funcionamento nas Américas deixou de ter uma programação regular. “Como qualquer construção mais antiga, ele precisa de reparos constantes. Corrigindo situações pequenas, evitamos que se tornem maiores”, assinala o secretário de cultura Zaqueu Astoni Moreira.