Da primeira geração criada diante da babá eletrônica (o aparelho de TV) à criançada que se programa pelo YouTube, são poucos os que não conhecem essas duas palavras: Hanna-Barbera. Formado pelos nomes de dois animadores (William Hanna e Joseph Barbera), o estúdio de desenhos animados completa, em julho, 60 anos.

A produção não continua a mesma, principalmente após a concorrência do digital, mas o que criaram nas décadas de 1950, 60 e 70 foi tão forte que até hoje permanecem no imaginário popular. Afinal, quem não conhece Fred Flintstones, Scooby-Doo, Manda-Chuva, Homem-Pássaro, Zé Colmeia, Herculoides e Leão da Montanha?

“A Hanna-Barbera moldou o imaginário cultural do século 20, assim como a Disney e a Warner, estúdio de Pernalonga e Patolino, só que em outra vertente, pois pegou um nicho de mercado que estava nascendo nos anos 50: os desenhos para TV”, registra Sávio Leite, diretor mineiro de animações e organizador do festival Mumia.

Até aquela época, os desenhos eram feitos para exibição em cinema. William Hanna e Joseph Barbera começaram no departamento de animação da MGM Cartoons, responsáveis por Tom & Jerry, dupla que rendeu nada menos do que sete Oscar à produtora conhecida pela vinheta do leão rugindo, na abertura dos filmes. 

Sem preconceito
“Produzir em larga escala para TV foi bom e ruim ao mesmo tempo. O lado ruim é que eram desenhos pobres esteticamente, porque precisavam ser feitos rapidamente, no formato de série. Assim eles usavam o mesmo cenário para desenhos diferentes, o que até gerou um preconceito contra eles”, analisa Sávio.

O outro lado da moeda é que, apesar dos poucos recursos, as histórias eram criativas e os personagens, cativantes. “Hoje você já os vê com outros olhos, porque os personagens eram graciosos e marcantes. E o fato de terem sobrevivido ao tempo é uma prova disso. O que fizeram mudou a história da animação mundial”, assinala.

Com os desenhos em permanente exibição (com um canal exclusivo para eles, o Tooncast), Sávio só lamenta que não há muitas publicações sobre o universo Hanna-Barbera, ao contrário dos muitos lançados sobre os personagens de Walt Disney. “Falta, por exemplo, uma enciclopédia sobre os personagens”.

Economia doméstica, educação dos filhos e fidelidade conjugal entre os temas abordados
Das dezenas de séries de animação da Hanna-Barbera que o roteirista Sylvio Gonçalves assistiu ao longo de sua infância, as que ele tem mais em conta são aquelas produzidas originalmente para exibição no horário nobre americano – sim, desenhos já tiveram a mesma importância numa grade que as novelas no Brasil.

“As fundamentais para a minha formação foram justamente as que tinham os adultos como público-alvo”, salienta Sylvio, enumerando “Manda-Chuva”, “Jonny Quest” e “Papai Sabe Nada”. O último, embora pouca gente se lembre, tinha o mesmo plot de “Os Flintstones” e “Os Jetsons”, focando o cotidiano de uma família, mas de forma mais satírica.

“É um legítimo precursor de ‘Os Simpsons’, tendo esboçado em desenho animado situações do mundo adulto, como economia doméstica, educação dos filhos e fidelidade conjugal, bem como questões típicas dos anos 1970, como movimento hippie e paranóia anticomunista”, recorda Sylvio.

O roteirista deve à série do “Manda-Chuva” a introdução à sátira social, “com histórias sobre excluídos que sobreviviam à margem de uma sociedade rígida e capitalista”. 

Sobre “Jonny Quest”, afirma ser até hoje a melhor versão em desenho animado dos gêneros de aventura e espionagem, tendo antecipado cenários e situações que seriam repetidas incansavelmente nos filmes de James Bond e Indiana Jones”.

Nostalgia
O império Hanna-Barbera não continuou por muito tempo, o que explica o fato de poucos desenhos novos serem lançados ultimamente. Um marco dessa decadência foi a compra do estúdio pela Turner Broadcasting System, que passou a exibir os personagens antigos primeiramente no canal Cartoon (depois, no Boomerang e agora no Tooncast).

Quando a Turner se fundiu ao grupo Time-Warner, em 1996, a HB se tornou uma subsidiário da Warner Animation. Atualmente o estúdio só existe no nome, para licenciamento de produtos relacionados aos clássicos. Mas alguns personagens continuaram sob as asas da Warner, especialmente “Scooby-Doo”. Muitos deles passaram a ser melhor aproveitados na tela grande, em versões live action.

 

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