Quatro anos antes do Grammy ser criado - a primeira edição do prêmio ocorreu em 1959 -, o jovem negro Emmett Till, de 14 anos, foi espancado até a morte por um homem branco, na tentativa de impressionar uma garota, também branca. Os gramofones já eram entregues por seis anos quando ativistas negros marcharam de Selma a Montgomery, no Alabama, pelo direito de votar, e foram atacados por policiais - brancos, é claro. Casos como esses não faltam: a história da comunidade negra nos Estados Unidos é um fantasma distante de sumir.

É dessa segregação, combatida há décadas, que vem a origem do hip-hop, uma cultura de rua, de resistência, de personalidade própria que, hoje, é a representação mais genuína da rebeldia, da fúria, da paixão e do amor sentido pela juventude. Posto já ocupado pelo rock, naquelas décadas douradas, de Elvis ao fim dos anos 1980, quando os roqueiros estrelados buscavam clínicas de reabilitação, aposentavam-se ou morreram pelo caminho.

A indústria fonográfica há pouco entendeu o processo de reestruturação. O pop morreu junto com os números em queda livre da venda dos discos. Faltou-lhes estrutura para se manter sem as cifras vindas das lojas de álbuns. E enquanto o mercado mainstream caía, a cultura hip-hop observava e ria. Marginais, eles fizeram suas bases sem ter como alicerce a compra de discos. Hoje, seus artistas são soberanos.

O Grammy, como todas as "academias" de arte dos Estados Unidos, passa por um processo de aceitação do que antes era apenas uma cultura marginal. Ainda segrega mulheres - somente uma artista mulher, Lorde, figura entre os indicados a álbum do ano. Não há um homem branco entre os cinco artistas pela primeira vez na história do Grammy. Com atraso, repararam na força de artistas como Jay-Z, Kendrick Lamar, entre outros. Na relevância estética - as fusões de rap com música eletrônica, jazz, dub, reggae, pop e, claro, rock - e na importância de suas rimas. É um canto entalado nas gargantas por décadas. Já passou da hora de serem ouvidos.