Em tempos onde o apagamento da cultura negra e, majoritariamente pobre, no Brasil e no mundo ganham forte relevo entre as pautas contemporâneas, o nome de Carolina Maria de Jesus ascende, de forma ainda mais potente, como sinônimo de luta e resistência. A favelada (como ela própria se descrevia) que lançou “Quarto de Despejo”, em 1960, foi logo alçada ao status de celebridade, conquistando uma visibilidade que por vezes obscureceu sua produção literária. 

O registro cru de seu cotidiano em uma favela paulistana comoveu leitores, foi traduzido e publicado em mais de 40 países e transformou a trajetória de Carolina sob diversos pontos de vista: do pessoal (pouco depois doi relegada ao ostracismo) ao acadêmico (sua não-inserção no cânone literário). No mês em que completaria 104 anos, a Idea promove hoje uma discussão a respeito destes e outros temas que cercam a escritora, em mais uma edição do evento Chá com Letras.

Embora tenha caído no esquecimento, principalmente após o sucesso de “Quarto do Despejo”, a produção de Carolina Maria de Jesus tem ganhado novo fôlego desde o seu centenário, comemorado em 2014. “Na academia há muitas pesquisas sobre ela, mas ainda assim, é uma autora desconhecida dos leitores comuns”, pontua Aline Alves Arruda, doutora em Literatura Brasileira e pesquisadora da obra de Carolina, que participa do bate-papo sobre a escritora. “Eventos como esses são importantes para que outras pessoas também a conheçam”, diz.

A divulgação de suas produções tem a importância justificada pela pesquisadora. “Além da qualidade das obras, ela traz uma questão da representatividade que é muito importante. Ela era uma mulher, negra, de periferia, que trouxe essa visão de dentro, do que é a fome, do que é viver em uma favela, do que é ser uma catadora”, sublinha. 

Dentro desse discurso de representação, a pesquisadora ressalta a atualidade de sua obra, principalmente de “Quarto do Despejo”. “Ainda hoje, quando lemos esse livro, conseguimos trazê-lo para um Brasil muito atual”, destaca. “Em tempos de Marielle Franco é ainda mais importante falar de literatura da mulher, mostrar que elas ocupam esse lugar, embora ele ainda seja muito masculino e branco, existem muitas escritoras negras que são influenciadas por ela”, afirma. 

Arruda ressalta também a relevância de se ampliar o olhar sobre a produção deixada por Carolina. “Ela escreveu outros gêneros, como poesias, romances. E mesmo nessas obras de ficção, muito influenciadas pelo romantismo do século XIX, que era o que ela tinha acesso, a gente consegue ver a Carolina crítica, perspicaz, realista e denunciando uma questão social”, explica. 

Serviço: Chá com Letras: hoje, às 19h na IDEA Casa de Cultura (Rua Bernardo Guimarães, 1200 – Funcionários). Entrada gratuita.