Quando o noticiário mostra a guerra contra separatistas ucranianos, os pais do garoto Alexey parecem indiferentes às mortes e ao desespero da população vizinha. A mãe veste um conjunto com as cores da Rússia e começa a caminhar na esteira. De repente para, como se tivesse acordado de um sonho. Essa parada é muito simbólica do que o filme “Sem Amor”, em cartaz nos cinemas, quer nos provocar.
 
Após quase duas horas em que os pais se confrontam o tempo inteiro e constroem uma vida paralela, iniciando o processo de divórcio, o longa, indicado ao Oscar de melhor produção estrangeira, dá alguns passos para trás para nos fazer ver que os problemas daquela família têm relação estreita com o país do presidente Putin, sobre a perda de valores essenciais.
 
O diretor Andrey Zvyagintsev dá continuidade à analogia apresentada em seu trabalho anterior – “Leviatã”, também nomeado ao Oscar, há três anos. Neste, a inércia e a corrupção do governo são evidentes, estabelecendo um retrato desesperançoso. Em “Sem Amor”, ele se manifesta pela inépcia da polícia, mas fundamentalmente pela postura dos personagens, egoístas e repetidores dos mesmos erros.
 
Em todos os filmes do cineasta (inclusos “O Retorno” e “Elena”, já exibidos no Brasil) há uma morte ou a sensação de iminência dela, que contagia fortemente a narrativa. Zvyagintsev tem na tensão constante uma de suas características, minando os espectadores por dentro.  No caso de “Sem Amor”, não há carinho pelos personagens – o amor parece terceirizado, como um serviço a ser oferecido.
 
Em contraponto ao luxo dos apartamentos e à beleza do casal (Zvyagintsev exibe a todo momento o corpo nu da atriz Maryana Spivak), o filme traz imagens de locais abandonados e deteriorados, por onde os protagonizados são levados a percorrer, obrigados a conhecer uma Rússia que não veem (ou não querem ver mais), acompanhados por uma trilha sonora sempre pesarosa.