Em clima de comemoração dos 10 anos do Instituto Inhotim, fundado por Bernardo Paz em 2006, Antônio Grassi, ator e diretor executivo da instituição, fez um balanço da própria gestão – que completou três anos em julho – e falou sobre os novos rumos do museu. Um dos planos é ampliar presença na vida dos cidadãos como um “estado de espírito” na próxima década, além de instituir um formato de patrocínio para as novas galerias. Saudoso dos palcos, Grassi se divide entre o artista e o administrador, e elogia a produção teatral de Belo Horizonte.

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Quando deixou a Funarte você disse que um dos motivos para a troca era que o “Grassi burocrata havia obscurecido o artista”. Como está o artista desde então?
O conjunto de histórias que eu vivi à frente da Funarte, que tem uma pressão grande para a execução de tudo, não é burocracia. É a necessidade que você tem em um órgão público de operacionalizar, de fazer as coisas acontecerem. Claro que existem mecanismos para que a gestão seja honesta. Isso é muito importante, mas tem um aspecto que generaliza, como se todo mundo fosse igual. Quando o Bernardo Paz me convidou, achei que era um desafio criativo enorme, mas não quer dizer que em Inhotim seja totalmente desburocratizado. Mas a possibilidade de usar o espírito de criação em um lugar como Inhotim é infinitamente prazeroso. De fato é um lugar que propicia a criação, é um ambiente que nasceu para isso. Foi o que me impulsionou a vir pra cá.

O mercado da arte passa por um momento obscurecido? 
É complicado. Tem várias questões que estão fora da cena artística, que travam o desenvolvimento de um projeto mais ousado, mais criativo. Acho que isso ainda é muito complicado. Ainda é travado. Uma das coisas que mais me impulsionou é que Inhotim tem uma ousadia. Ele não se ancora em um recurso fácil de popularizar, das linguagens serem de fácil gestão. Pelo contrário, existem obras em Inhotim bastante difíceis de digerir. Isso é muito legal. É aquela história de que o povo não sabe o que quer, mas também quer o que não sabe. 

“A possibilidade de usar o espírito de criação em um lugar como Inhotim é infinitamente prazeroso. É um lugar que propicia a criação, é um ambiente que nasceu para isso. Foi o que me impulsionou a vir pra cá” 

 

Em julho você completou três anos na diretoria do Inhotim. Qual é o balanço desse período? 
Tinha muitos projetos e ainda tenho. Conseguimos consolidar no Inhotim, no campo da programação, uma experiência muito bem-sucedida de incorporar outras linguagens. É uma questão muito delicada porque existe um diálogo com uma linha curatorial que você deve estar muito atento a ela. Quando a gente faz programações, que eu avalio como muito bem-sucedidas, como juntar artistas que tinham a ver com a arte da música, com músicos que ajudam a trazer não só público, mas a repercutir bem fora do seu espaço. Fizemos alguns contatos e experiências internacionais que certamente vão gerar frutos de agora pra frente. É claro que o Inhotim tem uma porta aberta impressionante, mais do que qualquer órgão público. Se você chega em Portugal, Alemanha, qualquer lugar, você é recebido com tapete vermelho. Criamos também um formato do Instituto Inhotim que está cada vez mais sólido. É claro que temos contingências que impossibilitam o avanço de alguns projetos. Muitas coisas que não conseguimos executar vêm da mudança do ambiente que temos hoje, como a crise. Principalmente na área de investimento, de captação. Tem também o trabalho que diz respeito à nossa inserção na região, os programas sociais com os quilombolas, com quem está em volta, os programas educativos. Nossos projetos servem de referência para o mundo inteiro. 

Você tem como marca registrada sempre lutar pela democratização da arte. Apesar de todas as ações que citou, Inhotim ainda carrega estigma de lugar elitizado. Quais são as ações nesse sentido? 
Esse estigma é falso. Cada vez mais tenho a convicção de que o Inhotim criou uma coisa que não é um museu, não é um jardim botânico, não é um lugar. É um estado de espírito, é único. É magistral nesse sentido de tocar as pessoas. A característica principal é que ele consegue igualar diferenças, seja rico, seja pobre. Na última quarta-feira do período de férias, que é o dia gratuito, tivemos recorde de visitação. Mais de 11 mil visitantes num único dia. Isso é um marco e nos coloca uma questão: Inhotim é um lugar popular. O que você tem ali é uma experiência dessa conjunção de arte e Natureza que cria um ambiente onde você não tem saída: se você não gosta de arte contemporânea, será envolvido pelo paisagismo. Se você odeia planta, terá obras incríveis. É um conjunto de histórias que coloca a experiência muito ímpar nisso. Tem um visitante que vai todo ano e fica uma semana, hospedando-se numa pousada da região. Ele gosta de estar lá. É a inspiração dele. Cada vez mais você vai encontrar pessoas que são estimuladas a ir em Inhotim não como um roteiro. Isso cria um diálogo muito fácil com qualquer pessoa. Esse é o grande achado do Inhotim, não existe pré-requisito.

Antônio Grassi

 

É o principal legado do Inhotim?
Acho que é o principal ganho. Uma coisa que está cada vez mais forte é o que ele inspira, o que Inhotim lhe possibilita pensar que seja possível para o futuro. O que vai acontecer na próxima década? Que Inhotim teremos? Como é um processo de evolução rápido, uma instituição que tem dez anos de idade, ele é muito jovem. As referências que temos hoje são instituições centenárias, como Louvre. É o desafio que o Bernardo estimula. Um projeto onde você pode construir uma vida pós-contemporânea, em que as pessoas possam vive<CW25>r ali em volta, quebrar um modelo de vida padrão. A próxima década do Inhotim é construir essa possibilidade de mundo. A gente tem espaço de terreno pra fazer muita coisa ainda, como vilas e condomínios. Aplicar o estado de espírito da visita na sua vida. Essa é a onda.

“Cada vez mais tenho a convicção de que o Inhotim criou uma coisa que não é um museu, não é um jardim botânico, não é um lugar. É um estado de espírito, é único. Se você não gosta de arte contemporânea, é envolvido pelo paisagismo. Se você odeia planta, tem obras incríveis” 

E hoje vocês trabalham com quais projetos? 
Existem muitos artistas que querem estar em Inhotim, que se mostram dispostos a doar obras para estar ali. Temos uma curadoria sempre de olho. Mas estamos focados em construir um formato para essa ampliação, em como fazer. Uma das coisas que temos preparado é fazer com que as galerias sejam bancadas por patronos. Uma galeria nova que possa ter a assinatura de um patrocinador. Cada expansão implica no aumento do custo de manutenção. Estamos trabalhando mais agora em como montar um formato para que sejam possíveis essas novas galerias.

Hoje o Inhotim se sustenta de que maneira?
Num conjunto geral, existe a participação direta do Bernardo Paz, a captação e a bilheteria, que contribui fortemente para isso. Também temos criado eventos com possibilidade de recursos. Temos a loja na Savassi, no parque. Teremos um hotel que vai abrir. E também temos associação de amigos que doam ao Inhotim.

Neste ano, o curador Rodrigo Moura, peça importante no quadro e na história de Inhotim, deixou o cargo. Como tem sido a experiência como Diretor Artístico interino?
Na verdade, existem dois componentes aí. Um é a curadoria, que tem um recorte muito específico, e a diretoria artística, que movimenta não só isso, mas também a programação, que eu já cuidava. A mudança, nesse sentido não houve, e a curadoria está com a Marta Mestre, nossa nova curadora. Com o Rodrigo eu vinha dialogando muito sobre a programação. Não há mudança no rumo, no perfil administrativo. A programação que temos feito além das artes visuais já vinha fazendo com o Rodrigo.

Tem algum nome para ocupar a posição?
Estamos estudando. Após a programação dos 10 anos vamos evoluir isso. 

Tendo uma trajetória de militância e luta estudantil, como você enxerga o momento político atual? O que mais te incomoda?
Na forma que a gente tem vivido, hoje o Brasil compõe um mosaico muito maluco. É uma judi-cialização excessiva da política. Vira uma panela onde tudo se mistura. Acho muito preocupante o grande movimento de direita. Não só no Brasil. Não estou dizendo que os partidos de esquerda sejam modelos de perfeição, mas acho que tem um nascimento de uma direita que vem evoluindo de modo assustador. Vemos movimentos raivosos. 

“A próxima década do Inhotim é construir essa possibilidade de mundo. A gente tem espaço de terreno pra fazer muita coisa ainda, vilas, condomínios. Aplicar o estado de espírito da visita na sua vida. Essa é a onda"

Existe espaço para o Grassi artista, o Grassi político e o Grassi administrador?
Minha carreira foi sempre construída, desde o início, num formato de convivência entre estes aspectos. Nunca fui exclusivamente de um assunto só porque não é da minha personalidade. Quando fiz teatro em Belo Horizonte, na época de estudante do Colégio Estadual Central, não deixei de me preocupar com outras questões. Na atividade teatral, sou de uma geração onde nós éramos produtores. Um contexto onde o teatro se fazia sem empresário, sem produtor. Nós que bancávamos nossos trabalhos. Então sempre participei de todos os processos da produção. Nunca fui exclusivamente um ator. Mesmo na TV e no cinema, eu sempre aceitei desafios.

Você acompanha a cena teatral de hoje em Belo Horizonte? Tem gostado?
Tenho visto coisas muito interessantes. Acho sensacional a Companhia Luna Lunera. Tem o grupo da Débora Falabella com a Yara Novaes, maravilhoso (Grupo 3 de Teatro, com Gabriel Paiva). Uma peça da Yara com a Debora e a Grace Passô dirigindo (espetáculo “Contrações”, de 2015). São experiências avançadas no cenário nacional. O teatro se descobre assim quando não tenta reproduzir o cinema e a TV. Isso acontece quando se pensa o teatro como teatro. Reproduzir linguagens é pobre. Cheguei num ponto que eu gosto de ver teatro onde eu me sinta com vontade de estar no palco.

Você sente saudades do palco?
Nestes momentos eu sinto, em vários momentos não sinto nenhuma (risos). O Teatro é a linguagem artística é onde você tem o domínio do ator. Quando abre a cortina, é você quem manda, apesar da direção. O grande barato do teatro é não passar batido.