Ao fazer qualquer matéria envolvendo Juca Kfouri, seria de bom tom evitar os clichês futebolísticos. Mas diante do jornalista que chega hoje em BH para falar de seu livro de memórias intitulado “Confesso Que Perdi”, a tentação de citar a clássica frase de seu colega de ofício Fernando Calazans, fica grande: “Se o Zico não ganhou a Copa, azar da Copa”.

Porque se Juca, quase cinco décadas como um dos patronos do bom jornalismo nacional, confessa que perdeu, o problema é mesmo dos adversários. Ou, para citar uma das “apropriações indébitas” (no caso, Darcy Ribeiro) que ele assume como inspiração para o batismo da obra, ele “detestaria estar no lugar de quem me venceu”. 

Zico e Darcy: Juca está em boa companhia, por mais que alguns amigos próximos não concordem. “Tenho um que é absolutamente inconformado com o título, sugeriu ‘Confesso que Empatei’", ri. “Outro definiu melhor: ‘Confesso que Perdi– mas foi roubado”, completa o escritor.

Aliás, foi esta alcunha– escritor– o drible final para convencer Juca de que a marcação cerrada de Luiz Schwarcz, diretor da Companhia das Letras, fazia sentido. “Depois de ler uma entrevista minha, ele me procurou em março de 2017, dizendo que existia um livro de memórias a ser escrito. Em um almoço com ele e (o jornalista) Matinas Suzuki Jr, tentei demovê-los da ideia, ninguém teria interesse, etc. Me deram um prazo longo, para outubro, mas o encontro terminou inconclusivo”. Marcaram nova reunião na editora e, ao chegar no elevador, Juca teve de responder a pergunta para adentrar no prédio: “Você é fornecedor ou autor?”. “Já subi convencido”, diz.

Fechado o acordo, ele sentou-se no sofá de casa e começou a “balbuciar um livro”. Apenas dois meses depois, “Confesso que Perdi” estava pronto, para sua surpresa. “Jorrei o livro, foi extremamente prazeroso. Mas, para minha vergonha jornalística, esqueci de contar muita coisa”, diz, citando, principalmente, o episódio da morte do pai–figura fundamental na obra– em um assalto na capital paulista.

Outra presença fundamental no livro é o esporte, este fartamente contemplado. “Quando penso na linha do tempo da minha vida, é indissociável de vitórias e derrotas do basquete, das olimpíadas, das Copas, do Santos de Pelé”, diz, sobre as constelações onde a trajetória do estudante de história “que não tinha nenhuma pretensão de ser jornalista”, orbita no livro. 

Assim, natural que duas paixões do jornalista mereçam destaques memoriais. Uma, inescapável, é o Corinthians, que, segundo Juca, explica muito de sua formação política. “Assim como nas escolas públicas que estudei, era na arquibancada que se dava a sacrossanta mistura de pessoas que estavam ali apenas para ver o time, já que passamos décadas sem ganhar nada”. A outra paixão é a seleção de 82, onde a derrota se provou, no fim, “um momento extremamente afetuoso, de recuperação da auto estima que transcendia o futebol”. 

Azar da Copa, sorte do leitor, que também ganha na obra o testemunho do jornalista pela história do país nas últimas décadas, de relatos saborosos sobre as publicações que chefiou, como Placar e Playboy, até bastidores de grandes reportagens, como a descoberta de Zéfiro. 

Já os jogos da política, ele assume como inspiração maior para o título do livro – em especial adversários como a CBF e o atual contexto caótico das instâncias maiores. “Não sou um jornalista ou uma pessoa derrotada, pelo contrário”, garante. “Mas agora, aos 67 anos, quando olho para o meu relato e penso no sonho que eu tinha aos 17 anos, de como seria o futebol e o Brasil, não dá pra não dizer que não perdi”, diz. Pode até ser, Juca. Mas foi roubado.