Desde 2011, quando decidiu assumir o guarda-roupa feminino, Laerte vive um processo público e progressivo de aceitação de sua transgeneralidade. A jornada de autodescobrimento da cartunista paulistana, hoje aos 65 anos, se deu por etapas e a alçou como uma das vozes do debate sobre as questões de gênero no Brasil. Nos últimos quatro anos, esse processo foi acompanhado pelas diretoras Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, resultando em “Laerte-se”, primeiro documentário brasileiro original da Netflix, cuja estreia acontece amanhã.

O filme acompanha a intimidade e o cotidiano de Laerte, em meio à sua investigação pessoal sobre o que é ser mulher. “O documentário mostra a conexão das minhas questões ligadas à sexualidade com minha vida social, profissional e familiar”, afirma Laerte, em entrevista ao Hoje em Dia. “Não é só sobre questões de gênero, apenas. É um filme sobre o nosso tempo”, completa, refutando a existência de um “universo feminino”.

“Para mim, ser mulher não é exatamente pertencer a um universo feminino. O que existe é uma cultura de gênero patriarcal que define campos diferentes para o masculino e o feminino. Essa cultura é quem acentua as diferenças para criar campos de exclusão”, reflete Laerte. “Mas acredito que a modernidade tem produzido formas de transgredir essas barreiras. O que vemos hoje é uma transgressão sistemática, que espero ser incorporada à nossa sociedade como uma cultura de liberdade”, completa.

Clandestinidade

Laerte conta que seu processo pessoal começou antes das roupas de mulher. “Primeiro, tive um momento denso com relação à aceitação da minha homossexualidade, que eu bloqueei por mais de 30 anos. Quando resolvi aceitar e viver a minha homossexualidade, a transgeneralidade veio como uma espécie de bônus”, sublinha.

“Quando entendi que gostava de me vestir de mulher, comecei a fazer isso de forma semiclandestina, indo a encontros com pessoas que o faziam. Mas depois comecei achar que não fazia sentido continuar me apresentando no masculino”, relembra.

“Hoje, tenho aprendido várias formas de expressão e isso é muito legal. Não saio mais na rua de qualquer jeito. Penso: Que cor me representa hoje? O que vai bem com esse sutiã ou com esse colar?”, conta.

Com o tempo, vieram outras questões como fazer ou não um implante de seios, ou mesmo se apresentar como a Laerte. “Gosto de ser chamada no feminino, me entendo assim. Mas esse é um processo muito complexo e comprido, e que ainda me traz questões. Por exemplo, eu não pensava em mudar de nome ou adotar a designação oficial de mulher. Mas, agora, tenho pensado. É que, pela primeira vez, a cédula de identidade vai taxar a pessoa pelo sexo feminino ou masculino, o que considero um abuso com as pessoas trans. Penso em entrar com um processo para definir o meu sexo como feminino. Afinal, não é necessária uma intervenção cirúrgica para isso. Eu quero e posso me declarar mulher”, revela.

Visibilidade

Citando nomes como a cantora Liniker e a também cartunista Samie Carvalho, Laerte vê com alegria a pauta da transgeneralidade ganhando espaço na arte – ainda mais no país que mais mata travestis e transexuais no mundo, conforme apontou a pesquisa da Rede Trans Brasil, divulgada em março deste ano. “Falar sobre questões de gênero e dizer, também, das relações entre homens e mulheres. Relações que envolvem uma violência absurda, com práticas criminosas como o estupro, que é assustadoramente frequente no Brasil, sem contar abusos e assédios de toda a ordem. A questão de gênero, como debate abrangente, é da maior importância para o Brasil”.

“O que essas vozes buscam é dar visibilidade ao debate. Porque a tendência mais encontrada é a de varrer os problemas para debaixo do tapete. O que eu espero é continuar trabalhando na contramão dessa tendência de acobertamento de crimes e preconceitos”.