Nas últimas páginas de “Em Nome dos Pais” (Editora Intríseca, 438 páginas, 49,90), há um “não agradecimento” que antecede à parte dedicada aos agradecimentos de praxe. O autor Matheus Leitão, que estará em BH nesta quarta-feira (7) para o lançamento do livro no projeto “Sempre um Papo”, faz questão de deixar registrado a falta de colaboração na pesquisa, negando “informações, mesmo mais de 40 anos depois”.

O projeto “Sempre Um Papo” recebe outros dois jornalistas nesta semana. Na terça (6), Roberto Lima participa de debate e lançamento do livro “Papoulas de Kandahar”. Na sexta (9), é a vez de André Trigueiro com o livro “Cidades e Soluções: Como Construir uma Sociedade Sustentável”. Ambos, às 19h30, no auditório da Cemig, com entrada franca


Matheus está se referindo a um episódio que marcaria a sua vida profundamente, a começar pelo nome: Mateus era o codinome de seu pai, militante do PCdoB, preso e torturado pela ditadura, juntamente com a mãe – a jornalista Miriam Leitão. Na época, ela estava grávida do primogênito, aos 19 anos, e chegou a passar horas numa sala escura, nua, tendo como companheira uma jiboia.

“Hoje há um fetiche, por causa da crise política, sobre a volta dos militares, como se fosse algo fácil de se resolver. A importância do livro está em ajudar a informar uma nova geração sobre qual era aquele contexto, de grave violação dos direitos humanos. Claro que o Exército é importante para qualquer país, mas precisa avaliar o que aconteceu e fazer um pedido de desculpas”, assinala.

Fiel aos sentimentos
Jornalista como a mãe, Matheus observa que “Em Nome dos Pais” é um relato de uma procura. Na verdade, de duas. Uma no campo micro, sobre uma história que nunca foi completamente verbalizada dentro da família. E outra macro, que diz respeito a tantos outros entes que não receberam seus filhos e irmãos de volta – o Brasil tem mais de 400 presos políticos desaparecidos.

“Muitos eram estudantes que simpatizavam com o comunismo. Nunca tiveram orientação para pegar em armas, fazendo panfletagem à maneira deles. Não podiam ser barbaramente torturados como foram”, lamenta Matheus, que se põe na narrativa do livro, compartilhando sua insegurança e tristeza com o leitor. “Já tinha uma estrutura na cabeça, mas foi tudo intuitivo”.

Para ele, como autor era importante se colocar na posição de leitor, que precisaria se sentir confortável com a leitura. “O suspense que a história cria é natural. Fui fiel aos sentimentos, ao que vivi. Quando consigo entrar no quartel, estou realmente raivoso. E quando vou encontrar com o torturador, tenho uma crise de asma. Fui construindo essa história com os meus sentimentos”, destaca.

Serviço: “Sempre um Papo” com Matheus Leitão – Nesta quarta-feira (7/6), às 19h30, no Auditório da Cemig (rua Alvarenga Peixoto, 1200, Santo Agostinho). Entrada franca.