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Clarice Lispector tinha uma caligrafia bonita, mas, doente, sofrendo com um câncer no ovário, as letras se tornaram rabiscos nervosos, quase incompreensíveis, buscando qualquer papel à frente (até o verso de um talão de cheques) para se transformar, mais tarde, na obra-prima da escritora. Poucos dias após pôr um ponto final em “A Hora da Estrela”, a ucraniana naturalizada brasileira faleceu, sem tempo de ver o sucesso do livro, ainda hoje no rol dos mais vendidos.
 
Quarenta anos depois, a publicação retorna às prateleiras numa edição comemorativa, em que se destacam 16 páginas com a reprodução dos manuscritos de Clarice. “Hoje ela é a nossa campeã de vendas, independentemente de gênero. E o sucesso dela só fez aumentar com o passar dos anos, algo que, em vida, não experimentou. Ela não tem apenas leitores. São fãs, seguidores, para usar uma linguagem mais contemporânea”, registra Pedro Vasquez, editor da Rocco.
 
Cult
Para Pedro, Clarice alcançou o status de cult, como Frida Khalo e Simone de Beauvoir. “Clarice é uma figura emblemática, uma referência para a mulher contemporânea, sobretudo as jovens. O rosto dela está em bolsas, camisetas... Não se trata de campanha. Tudo acontece espontaneamente”, registra o editor, que enumera vários ingredientes para explicar o sucesso de “A Hora da Estrela” – do filme lançado em 1985, exibido em cerca de 80 países, ao fato de o livro ser uma “carta de despedida”.
 
“Tem esse tom (de adeus) sim. O narrador do livro é um escritor em crise criativa que se coloca como um autor em fim de linha”, assinala. A história de uma migrante nordestina em São Paulo também tem papel preponderante. “Ela é um pouco fora do padrão de Clarice, marcado por questões existenciais e universais. Macabéa é um mito brasileiro, tipicamente nordestino, mas ao mesmo tempo o lado cosmopolita de Clarice também passa nesse livro”, salienta.
 
Há 19 anos no catálogo da Rocco, que também detém os direitos de outros livros de Clarice, “A Hora da Estrela” é o 8º livro nacional mais vendido do ano, segundo a PublishNews, publicação especializada em mercado literário
 
A via-crúcis de Macabéa é, de acordo com Pedro, muito representativa da vida nacional, tanto em 1977 quanto em 2017. “O grande problema dela é a solidão. Ela se sente inadequada, sem lugar no mundo. Mas há uma esperança, quando consegue se encantar com certas coisas, como uma flor de plástico, que não precisa ser regada e não estraga. Macabéa tem essa simplicidade, que faz você logo se identificar com ela”, analisa.
 
Ensaios
A edição comemorativa conta com apresentação da escritora Paloma Vidal, sobre o processo de descoberta dos esboços, guardados no Instituto Moreira Salles, e seis ensaios assinados por Nádia Battela Gotlib, biógrafa da autora; pelo acadêmico Eduardo Portella, falecido no último dia 2; pela professora Clarisse Fukelman; pelo escritor irlandês Colm Tóbin; pela crítica francesa Helène Crixous; e pela pesquisadora argentina Florencia Garramuño.
 
Florencia apresenta um dos textos mais curiosos, a partir da foto de Clarice na “passeata dos cem mil”, ocorrida em 1968, em virtude do assassinato do estudante Edson Luís, protestando ao lado de Milton Nascimento, Ziraldo, Gilberto Gil, Chico Buarque. “Ela alerta para o fato que Clarice não se omitia em relação aos grandes acontecimentos de seu tempo. Esse lado não presente nos romances, mas nas crônicas e na vida dela”.
 
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Manuscritos do livro são um presente para os fãs da autora
 
A escritora e professora universitária Paloma Vidal tem uma história parecida com a de Clarice Lispector. Nasceu no estrangeiro (Clarice na Ucrânia e Paloma na Argentina), mas veio pequena para o Brasil (aos dois anos, como a autora de “A Hora da Estrela”), onde desenvolveu essa dupla nacionalidade. Os caminhos se cruzaram quando traduziu para o espanhol “Legião Estrangeira” e “Um Sopro de Vida”.
 
Indagada sobre a questão da identidade, Paloma “pensa alto”, como ela mesma diz, nessa entrevista de Buenos Aires, feita pelo WhatsApp, observando que Clarice tem um trabalho marcado pela convivência com a estrangeiridade. Macabéa seria fruto disso. “Ela sai do Nordeste e vai para o Rio, que não é o Rio turístico, visto de viés. E Macabéa não só se relaciona com o imaginário nordestino, da pobreza, mas com a figura deslocada também”, afirma.
 
Monumentalização
Para alguém que também tem na escrita a sua forma de expressão, Paloma confessa que ficou intrigada com o processo de Clarice, após mergulhar nos manuscritos da escritora para fazer a crônica que abre a edição comemorativa. “É difícil aproximar-se desses escritos e não cair no lugar comum, diante de uma certa monumentalização. Às vezes, eles também não dizem nada, sobre a chave ou segredo, mas faz você pensar no processo”.
Paloma destaca que, mentalmente, passou a amarrar todos os bilhetes e folhas soltas e pensar na maneira como foi dado um corpo e um espaço para todo aquele material. 
 
“O que mais me interessou, e que interessa aos autores em geral, é tentar entender o percurso. Como tantas coisas surgiram no caminho e depois ficaram de fora”, destaca a autora, que, ao receber a tarefa, sentiu o “peso” da responsabilidade.
 
O nome da protagonista, Macabéa, foi retirado do episódio bíblico dos macabeus, o grupo liderado por Judas Macabeu, um dos maiores heróis da história judaica. Clarice nasceu numa família judia russa, em 1920
 
“Esses manuscritos ainda não foram muito estudados. É um material incrível, que pode ser mais aprofundado a partir do ponto de vista da crítica genética (acompanhamento teórico-crítico do processo de criação). Mas depois entendi que esse foi um primeiro passo, que outros textos vão vir. É bom que isso tudo esteja disponível”.
 
Mais lançamentos
A intenção da editora Rocco é relançar todos os livros de Clarice com edições repaginadas. No próximo ano, será lançado “Todas as Crônicas”, que terá o mesmo formato de “Todos os Cantos”, publicado em 2016, com os textos ordenados por data de veiculação.