Que estamos vivendo uma febre memorialista, especialmente no que se refere a lançamentos literários, parece inegável. A quantidade de biografias disponíveis nas estantes das livrarias é impressionante; as séries de obras que buscam remontar o passado também. Seria tudo isso sintoma de um período em que o tempo parece durar cada vez menos, nos views e likes das redes sociais?

Na esteira desta percepção, é também um tempo de revirar baús e memórias pessoais em diários, trocas de correspondências, entre outras possibilidades narrativas, envolvendo grandes nomes da arte e da cultura. São trabalhos que preenchem uma lacuna de interesse público na vida privada dos ídolos. Obras que de alguma forma saciam esta sede contemporânea de saber tudo sobre o outro.

Os rascunhos de Renato Russo reunidos em “O Livro das Listas” se aloca com folga neste tipo de raciocínio, somando-se à pilha de publicações e eventos como a exposição que leva o nome dele, em cartaz atualmente no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, e que busca documentar a marcante existência do artista na cultura pop brasileira. 

De alguma forma, trata-se de um trabalho meio assustador: qual o interesse do público em colecionar rascunhos, listas caligrafadas, compêndios de tarefas cotidianas e rankings afetivos do cantor e compositor da Legião Urbana? O que acrescenta à obra dele? Saber que em algum momento da década de 1990 ele precisava ligar para algum amigo, comprar passagens aéreas ou até mesmo “fazer sexo”?

Por outro lado – o lado que realmente “justifica” um lançamento como esse– é inegável que as zilhões de listas, citações, desejos e comentários que ele escrevia meticulosamente nos cadernos adolescentes ajudam a entender a criação da persona Renato Russo. Este último não nasceu do nada: é fruto das muitas referências que um sujeito chamado Renato Manfredini Júnior foi pilhando, desde jovem, se compondo com muita informação.

Um sujeito mediado pelo melhor que o pop pode oferecer: estão no radar de Russo algumas das melhores e mais notáveis obras culturais de todos os tempos, seja na música, no cinema, ou na literatura, ambiências que emergem como os principais focos de interesse dele.

Nesta direção, o livro funciona como um ótimo indicador de coisas bacanas, afinal, tinha muito bom gosto, o sujeito. Entre paixões pouco conhecidas (como o cinema de Peter Bogdanovich ou o desconhecido grupo Harpers Bizarre) até a fixação por clássicos como Beach Boys, Beatles e Smiths, o baú de Russo acaba servindo como boa fonte de indicações.