No Brasil, alguns bairros são signos culturais importantes. É impossível pensar na Bossa Nova sem lembrar de Ipanema; no rock paulista sem citar a Pompéia. No caso específico de Belo Horizonte, apesar de Santa Tereza ter parido algumas das manifestações musicais mineiras mais potentes, como o Clube da Esquina e o Sepultura, é a Savassi –que só ganhou autonomia como bairro oficialmente em 2006– que ocupa o imaginário e, principalmente, o histórico de agitação social da capital mineira.

Trazer à tona essa força é um dos eixos de “A Turma da Savassi...que virou nome de bairro”, nova investida literária de Jorge Fernando dos Santos. “É um mapeamento de personagens que fizeram a Savassi ser o que ela foi. Uma turma que reuniu 200 jovens em duas décadas que simbolizam um período importante para a cidade”, sintetiza o autor.

Escrito por sugestão e mecenato do compositor Pacífico Mascarenhas (autor de diversas odes musicais ao bairro), remanescente da turma, o livro é ilustrado com fotos de época, um mapa dos principais logradouros da Savassi e os endereços de seus integrantes.

“Procurei entrevistar os participantes que ainda estão vivos, e em paralelo consultei livros da época. Aprendi muito sobre a cidade”, revela o autor. Para Jorge, três paisagens são fundamentais para se pensar o nascimento da Savassi como tal. “Primeiramente temos o bonde, que chegava onde hoje temos a Praça Diogo de Vasconcellos, nos anos 30 e 40. Posteriormente, a Padaria Savassi e depois, em 48, o Cine Pathé. Sem isso, teríamos outra história”, garante.

Assim a obra se faz um inventário afetivo, que ajuda a formatar a “viagem sentimental” proposta pelo escritor. “Falo de uma BH de milhares de habitantes, cordial, boêmia e bucólica, onde faço uma contextualização fundamental para qualquer livro de memórias. Assim, alguns valores só fazem sentido naquele momento. Não posso exigir das pessoas de hoje o comportamento de outrora”.

HOJE

Nesta direção, chegamos à Savassi de hoje, que, em comparação, o escritor situa como um “retrato na parede”. “Ela foi penalizada por algumas questões. Uma delas é o shopping, que consolidou a mudança no hábito de compra do público, não só no bairro mas em geral, na cidade. Outro aspecto importante foi a reforma para a Copa do Mundo, que de alguma forma descaracterizou o espaço. Por fim, a crise, já que ela não está isolada no quadro atual de falência econômica e de valores”.

Para ilustrar a situação, o bairro hoje exibe uma atmosfera mais lúgubre, bem diferente da narrada pelo livro: lojas fechadas, jardins devastados, um espaço “muito esvaziado”. “Não adianta ser saudosista”, acredita o escritor. “Mas podemos melhorar a Savassi que sobreviveu”.