O ceticismo de Murilo Rubião (1916-1991) parecia irremediável já aos 30 e poucos anos de idade – não no sentido religioso, vale dizer; ele recitava textos bíblicos, apesar de não ter assumido uma religião. O ceticismo ou mesmo falta de esperança era uma – talvez, única para ele – maneira de enxergar a vida.

Em 8 de setembro de 1948, o escritor mineiro de Silvestre Ferraz (hoje Carmo de Minas) radicado em Belo Horizonte, chegou a escrever: “Aqui, velho amigo, sobraçando uma solidão irreparável, aguarda-me melancólico destino. O casamento, o desespero ou qualquer forma benigna de suicídio”. 

As palavras ditas por Rubião foram endereçadas ao jornalista e escritor Otto Lara Resende (1922-1992) e constam numa das 95 cartas publicadas no livro “Mares Interiores: Correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende” (Autêntica/Editora UFMG, 224 páginas, R$ 49,80), organizado pelo pesquisador Cleber Araújo Cabral. 

Otto não perde muito para Rubião no quesito pesar. No dia 30 de setembro de 1948, respondeu ao amigo: “Pela vida afora, vamos amarrando cadáveres a nós mesmos, criando monstros a leite. Chegará o dia de sermos devorados”. 

Apesar dos pesares, é delicioso lê-los. A dupla é irônica e tem uma espécie de humor negro, fazia piadas com as desgraças que lhe apareciam, como quando Otto disse que estava mergulhado num “mar de dívidas”, logo ele que não sabia “nadar nem em felicidade”. Cômico se não fosse trágico. 

Mesmo havendo detalhes de sua vida partilhados, como os dissabores amorosos, mestre em realismo fantástico como era, fica a dúvida sobre o que era, de fato, verídico nas cartas de Rubião, como palpita Cabral. “Certamente, ele era um contador de causos. Não dá para saber o que era recriação literária, fabulação e fato. Ele disse coisas como: ‘ando triste como um chapéu de chuva sem pano, sem dono e sem chuva’. Talvez fosse um desamparo mais encenado do que vivido”, comenta o pesquisador. 

livro “Mares Interiores: Correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende”

 

‘O fogo é uma ilusão’

No livro, as cartas foram subdivididas em três momentos. No primeiro, de 1945 a 1952, Rubião está em BH e Otto, que é mineiro de São João del-Rei, está no Rio de Janeiro. Entre 1957 e 1959, Rubião manda notícias de Madri (Espanha) e Otto de Bruxelas (Bélgica). Por último, há correspondências trocadas entre 1966 e 1991, quando os dois estão de volta ao Brasil. 

Durante a trajetória dos autores, é interessante perceber a insegurança que tinham a respeito do ofício. Para quem imagina que um texto “nasce” pronto, Rubião e Otto jogam uma pá de cal nessa concepção. Cabral diz que o objetivo do livro é justamente esse: o de mostrar que o escritor se forma ao longo do tempo. “A gente vê (nas cartas) que eles tinham dificuldades de achar o texto pronto para a publicação. Há um excesso de autocrítica dos dois”, destaca. 

Buscando, então, o aprimoramento, um foi atrás da aprovação do outro. Otto, por exemplo, leu em primeira mão “O Ex-mágico” (1947), de Rubião, e disse ter visto no livro “algo de novo”, que “transmite”. O mesmo que aprovou, contudo, também não fez cena quando não gostou de algo. “Algumas vezes (em certos contos) seu estilo nem sempre me agrada”, falou Otto, certa vez. 

“Às vezes, fica parecendo que o escritor é um gênio, mas são 99,9% de transpiração e 0,1% de encantamento. Espero que o livro desmanche a imagem de pirotécnico (de Rubião). O fogo é fruto de muito empenho, até porque a mágica do fogo é uma ilusão, um artifício”, pontua Cabral. 

Próximos passos
Resultado de uma pesquisa de mestrado de Cabral sobre Rubião, o livro é o primeiro de uma série. O pesquisador planeja lançar ainda neste primeiro semestre cartas trocadas entre o escritor mineiro e Mário de Andrade. 

A ideia é trazer a público também correspondências enviadas entre Rubião e Fernando Sabino. Um empecilho, porém, tem adiado o plano: Cabral tem em mãos somente as respostas de Sabino.