Para Otto Lara Resende (1922-1992), os contos de Murilo Rubião (1916-1991) em "O Ex-Mágico" tinham uma lógica desesperadora, estavam "encharcados" de uma vida dolorosa e forte. Dos textos, Otto via saltar "uma simbologia que deprime e choca".

Foi o que o escritor disse em uma carta de 3 de novembro de 1947 ao amigo -a primeira de mais fôlego que ele enviou a Rubião, já que a anterior havia sido um breve telegrama ("UM GRANDE ABRAÇO E VIVA O BACHAREL MURILO RUBIÃO").

A correspondência dos dois escritores agora está reunida em "Mares Interiores", organizada pelo pesquisador Cleber Araújo Cabral -um conjunto que começa em 1945 e vai até 1991 e estava inédito até agora.

Na carta em que comenta "O Ex-Mágico", destaca o organizador, já é possível ver uma faceta de crítico literário de Otto.

"Ele mencionou em várias ocasiões que queria ser crítico, não necessariamente escritor. E vemos essa verve na leitura que ele faz dos originais [de Rubião]", diz Amaral. "É interessante a aproximação que ele faz (do amigo) com a obra de Kafka, com os personagens em um mundo em ruínas."

As novas cartas também ajudam a ver como Murilo Rubião -que neste ano, aliás, completaria cem anos- pensava seu processo criativo.

Em entrevistas, o autor costumava repetir as mesmas ideias. Via a literatura como uma fatalidade. Sentia prazer apenas em ter a ideia para um novo conto -mas o processo de escrita em si era sofrido, contava.

"Acho que as cartas nos ajudam a ver outros discursos sobre o processo criativo dele. Claro que é difícil falar em sinceridade em qualquer correspondência, porque há encenações e edições de si do lado de quem escreve", diz Amaral.

As cartas da dupla estão divididas em três momentos: de 1945 a 1952, quando Otto está no Rio e Rubião em Minas; de 1957 a 1959, quando Rubião estava em Madri e o amigo, em Bruxelas; e de 1966 a 1991, ano em que Rubião morre.

O novo livro é o primeiro de um conjunto de três. O pesquisador ainda prepara edições das cartas do autor de "O Ex-Mágico" com Fernando Sabino e Mário de Andrade. O conjunto com o modernista já havia sido editado nos anos 1990, mas terá missivas que só ficaram acessíveis depois da edição original.

Amaral só esbarrou em um problema ao pesquisar a correspondência de Rubião com o autor de "O Encontro Marcado": só achou as cartas que Sabino enviou para Rubião, mas não o contrário.

"Já procurei em vários arquivos, mas não achei. Cheguei a entrar em contato com a família do Fernando Sabino, mas também não deu certo."