“Os atores são os mesmos, apenas trocando os quepes pelas togas”, compara João Vicente Goulart, filho do presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964 numa situação muito semelhante, segundo ele, ao que aconteceu nesse ano com Dilma Rousseff.

As memórias daquele 1º de abril ainda estão bem vivas, quando saiu às pressas da Granja do Torto, em Brasília, em direção ao Rio Grande do Sul e, depois, ao Uruguai. Elas agora ganharam a forma de livro, com “Jango e Eu – Memórias de um Exílio Sem Volta” (Civilização Brasileira, 378 páginas).

A publicação revela detalhes pouco conhecidos dos anos de “ave peregrina”, como o próprio Jango definiu a sensação de viver em países estranhos, obrigado a ver o filho, na escola, cantar um hino em espanhol e beijar uma bandeira sem as cores verde, amarela e azul. 

“Lá há um rito de passagem, entre o ensino fundamental e o médio, em que você tem que jurar amor à bandeira. Pela primeira vez eu o vi com lágrimas nos olhos, após eu beijar a bandeira do Uruguai. Papai dizia que o exílio era como ser uma espécie de morto-vivo”, lembra.

Ao fazer um recorte, que vai de 1964 a 1976, com o falecimento de Jango em circunstâncias suspeitas (por envenenamento), João Vicente assinala que o livro é um tributo que busca o lado humano de Jango. “Começa pelo olhar de uma criança de 7 anos que desconhecia o significado de exílio”, conta.

Muitos acreditavam que o golpe seria apenas uma quartelada, de pouca duração, com eleições democráticas sendo realizadas no ano seguinte. Longe de vislumbrar uma ditadura que ficou 21 anos no poder. “Foi tudo bem planejado pela política externa do Departamento de Estado americano”, registra.

Tanto é assim que, frisa o autor, em pouco tempo, toda a América Latina havia sido tomada por golpes de Estado, feitos por militares. “Jango dignificou sua luta no exílio, pois enquanto permanecesse como presidente deposto no exílio, não estaria legitimando a ditadura”, afirma.

Aprovação do povo
Para o filho, Jango caiu porque suas reformas estavam muito à frente do seu tempo. “Até hoje, 52 anos depois, ainda não foram feitas as reformas agrária, tributária e educacional. Hoje a gente sabe que esconderam uma pesquisa que dava 78% de aprovação da população para as reformas”.

Questões que o levam ao momento atual. “Em 1962, deputados foram eleitos com 5 milhões de dólares financiados pela CIA. Depois fizeram o terrível papel, na madrugada de 2 de abril, de declarar vaga a presidência, sendo que o presidente constituinte estava no país, resistindo. Agora, 300 parlamentares derrubaram a presidente Dilma”.