O Holocausto, uma das páginas mais sombrias da História mundial, e a corrupção que contamina a política brasileira atual nas mais diferentes esferas. Dois universos muito diversos, separados por mais de meio século, sustentam a narrativa de “Um Nazista em Copacabana” (Rocco, 352 páginas, R$ 38), escrito por Ubiratan Marrek.

É assim que surge a história de um ex-nazista que desembarca com uma brasileira no Rio de Janeiro. Dessa união nasce uma garota que agora se vê envolvida em escândalos de corrupção por causa de ex-parceiro. “Eu me propus um desafio literário, do ponto de vista narrativo. Misturar dois universos tão distintos numa narrativa única era uma tarefa hercúlea”, avalia Ubiratan.

O autor buscou propositadamente o risco, pois, segundo ele, não há rede de segurança quando se quer criar uma literatura viva. “Se quer construir uma carreira como artista, o risco é inerente. No meu caso, fiz um romance de natureza social traçando panoramas de nação”, explica o escritor, sobre seu segundo livro – o primeiro foi “Corrida do Membro” (2007).

Essa junção entre o local e o universal tem o sentido também de romper com a ideia de insularidade do país. Ele explica: “O Brasil tem uma dimensão continental, mas no fundo é uma ilha. Estamos voltados para nós mesmos, pouco interagimos com o mundo. E isso se dá no campo literário também, em sua temática. Só perdemos com isso, sendo aprisionados pela linguagem”.

O autor foi acusado de retratar o universo masculino com acidez. “Talvez seja isso mesmo. Vejo no universo feminino valores superiores”

Apesar desse interesse pelo que é de fora, no livro não há detalhes históricos sobre o Holocausto. O alemão só é apresentado em sua intimidade, a partir da mulher e da filha. “O que me interessava eram as relações, especialmente dele com a filha, de como a ausência dele a afetou. Captar o lado humano dessas situações históricas é o que me desafia”.

O combatente Otto Funk existiu, assim como o político Delúbio é uma referência óbvia ao tesoureiro do PT envolvido em corrupção. “É uma brincadeira com esses personagens homônimos. Não faço crítica ao PT. Embaralhei tudo para ganhar uma forma difusa. Está claro para a sociedade brasileira que todos os políticos agem da mesma maneira”.