Há quem diga que a nova geração não lê como a anterior – em forma e volume. Se considerados os livros tradicionais, talvez a afirmativa esteja correta, mas se a crença for vista por uma ótica diferente, pode estar bem distante da verdade. Nas telas de computadores e smartphones pode ser encontrada uma infinidade de novas histórias e produções narrativas. E feitas pelo próprio público, o que torna a experiência ainda mais instigante.

Tais narrativas, que povoam a internet em sites exclusivos, são conhecidas como fanfictions, fanfics ou, em um termo ainda mais encurtado, apenas fics. Essas ficções de fã (na tradução literal do inglês) recorrem, em sua maioria, à personagens já existentes na cultura midiática – o que possibilita uma infinidade temática gigantesca – buscando inspirações em filmes, músicos e outras celebridades, seriados e na própria literatura.

Visibilidade

Por mais mirabolantes que algumas narrativas sejam – como a que aborda o romance entre a cantora norte-americana Selena Gomez e o apresentador brasileiro Faustão, que, aliás, se tornou viral – essas histórias têm sua importância.

A pesquisadora Paula Pinheiro observa que, além de ampliarem narrativas e levá-las a outros rumos, esses conteúdos podem até mesmo questionar a representatividade na mídia e ajudar o público a lidar com questões pessoais. “Muitos livros surgem de uma tentativa dos autores de entenderem os próprios sentimentos, mas escrever uma obra original é bem desafiador. Fica mais fácil quando você pega emprestado personagens e elementos de um universo já existente para explorar essas questões”, observa.

Nesse sentido, ganham destaque as fanfictions de conteúdo LGBT, que chegam a congregar milhares de leitores e visualizações na internet. Skyfall, inspirada no romance fictício entre as ex-integrantes do grupo Fifth Harmony Camila Cabello e Lauren Jauregui, por exemplo, já acumula mais de 200 mil views no site Spirit Fanfiction.

A pesquisadora infere que a questão da representatividade se destaca nessas produções que trazem romances lésbicos, conhecidas também como femslash. “Estas fanfics produzidas por mulheres lésbicas e bissexuais parecem ser uma maneira de validar a própria sexualidade. Temos pouquíssimas narrativas de mulheres que se relacionam com mulheres que não sejam fetichizadas, que não sejam produzidas para o olhar masculino”, observa. “Então nesse caso eu vejo as fanfics homoeróticas como uma forma de resistência, seja de se fazer ver em narrativas que já incluem personagens lésbicas, seja para se inscrever em narrativas que não têm essa representação oficialmente”, acrescenta.

Por estarem inseridos em um universo que, segundo Paula Pinheiro, é formado principalmente por mulheres jovens, tais conteúdos reforçam a descoberta da sexualidade feminina. “Um ponto recorrente nas discussões sobre essas produções dentro dos fandoms (comunidades de fãs) é que isso é de certa forma uma feti-chização desse relacionamento. Me parece que a figura do ‘melhor amigo gay’, do homem gay como um homem ‘inofensivo’, com uma sexualidade que não o coloca como um predador para as mulheres heterossexuais, acaba contribuindo para a produção dessas narrativas homoafetivas”, sublinha.

“A sexualidade feminina, independentemente da ori-entação sexual, é muito reprimida. Isso tem mudado com a reemergência dos romances eróticos, mas ainda existe muito tabu acerca disso. Então nesse espaço do fandom, que é majoritariamente feminino, essas garotas encontram ambiente mais seguro pra explorar isso”.

 

Skyfall fanfic

CAMREN - Histórias sobre o relacionamento fictício entre as ex-integrantes do Fifth Harmony Camila Cabello e Lauren Jauregui povoam a internet

 

Fanfics ajudam a lidar com a descoberta da sexualidade

“É bom usar o personagem como válvula de escape e contar experiências, porque tem momentos, desejos e uma infinidade de coisas que não têm como você expressar. Mas com a escrita você chega bem perto disso”, pontua Taemeetevil, autora baiana de 21 anos, que no universo das fanfics assina suas produções com este pseudônimo. Ela pediu sigilo sobre o nome real.

Por darem visibilidade às questões homoafetivas, a autora acredita que essas histórias também têm êxito em capturar leitores. “Casais LGBT ainda são minoria, tanto que o fato de o par romântico de um livro ser gay ainda é motivo de espanto. Posso contar nos dedos de quantos livros dessa temática eu ouvi falar. A fanfic meio que alimenta esse mercado”, analisa.

Taemeetevil, que publicou a primeira fanfic em 2013, conta que a produção de narrativas homoafetivas começou no ano seguinte. “Já escrevi cinco histórias. Em 2016, que foi quando eu me assumi LGBT, estava totalmente perdida e não conseguia lidar com isso”, lembra. “Quando voltei a me interessar por fanfics já não queria ler as (histórias) heterossexuais. Queria algo mais próximo a mim, e como eu gosto do BTS (grupo coreano de kpop) e dos shipps do grupo, eu quis investir nisso”, diz.

A aposta deu certo! Tanto que a baiana comemora a boa receptividade do público às suas histórias – a mais recente, chamada “God Killer”, já soma mais de 104 mil visualizações no site Spirit Fanfics.

“Sinto mais apoio com o tema LGBT, os leitores interagem mais”, comemora. “Eles incentivam bastante. Tento falar com o máximo possível de leitores, porque a trama é mais densa e às vezes preciso explicar algo por fora”, sublinha ela, que se inspira principalmente no gênero fantasia.

 

Larry Fanfic

Fanfictions que falam sobre o relacionamento fictício entre os ex-integrantes da One Direction Harry Styles e Louis Tomlison fazem sucesso

 

Possibilidade de rumos alternativos às histórias

Leitora assídua de fanfictions, a artista autônoma Giovana Werneck, de 29 anos, conta que começou o hábito ainda nos tempos de escola. “Comecei lendo sobre os desenhos que eu gostava, como Sakura Card Captors, mas só fui realmente me envolver mais intensamente e começar a produzir quando entrei no fandom de Harry Potter”, lembra.

Apesar de não escrever mais fanfictions, o interesse por este universo permanece. “Normalmente procuro histórias com casais da mídia que eu admiro, ou do fandom que eu esteja envolvida no momento, que atualmente são os dos jogos Overwatcj e Final Fantasy XV”, conta. “Apesar de procurar fanfics que tragam casais sobre os quais eu queira ler, o que realmente me prende é a forma como essa relação vai ser desenvolvida”, revela. “Elas não são só uma maneira de ter o que o original não dá, mas também um jeito de celebrar os casais e personagens que amamos”.

Na seara dos romances, ela conta que a busca por essas histórias surge muitas vezes da insatisfação com determinadas representações ou os rumos dados aos relacionamentos ‘originais’. “A minha principal frustração está nos jogos em que casais pouco desenvolvidos são os que de fato existem, enquanto outros personagens que têm desenvolvimento muito mais interessante entre si não têm essa representação. Em outros casos os fãs simplesmente não aceitam o final, principalmente se for triste, e procuram nas fanfics histórias que mudem isso”, afirma.

Quanto aos romances homoafetivos, ela acredita que as fanfictions surgem para suprir aquilo que as mídias tradicionais costumam não oferecer. “Hoje em dia há mais representação, mas ainda tem muito caminho para ser percorrido”, reconhece.

Glossário

Fanfiction: narrativas produzidas por fãs, que recorrem a personagens ou histórias já existentes ou trazem celebridades como personagens principais
Fandom: comunidades de fãs
Femslash: fanfictions que relatam romance entre mulheres
Slash: fanfictions que relatam romance entre homens
Shipp: ato de torcer por determinado casal (real ou não) de personagens ou celebridades

Aplicativos

Spirit Fanfics e Histórias: Plataforma de leitura e publicação de fanfictions, disponível em aplicativos para Android e iOs e também no site www.spiritfanfiction.com
Nyah! Fanfiction: Ddisponível no site fanfiction.com.br
Wattpad: Disponível em aplicativos para Android e iOS e no também no site www.wattpad.com