Há cerca de três anos, o servidor público Marco Antônio Pimenta de Barros estava em um “beco sem saída”. No apartamento para o qual havia acabado de se mudar, o espaço destinado para a lateral da geladeira não fica visível o suficiente para expor a coleção de ímãs.

“Na porta da geladeira é ruim, porque a gente abre e fecha toda hora e os ímãs caem”, explica. Parece exagero, mas Marco Antônio não está sozinho nessa. Muita gente tem transformado a geladeira em verdadeiro espaço de arte. Outros, inclusive, têm feito da criação dos magnetes fonte de renda.

Os ímãs de Marco Antônio ficaram encaixotados por cerca de cinco meses até que ele teve uma ideia para sanar o impasse. “Fiquei pensando em várias possibilidades até que resolvi comprar uma porta de geladeira à parte num lugar que só vende isso. Mas, claro, não falei na hora que era para ímã”, lembra o servidor público, todo feliz com o feito, afinal, a porta é do jeitinho que ele queria.

“A cor bate com a decoração da casa”, destaca. A porta foi pendurada na parede da sala. “Tem gente que olha e não vê que é uma porta, acha que é um quadro”, conta. 

Mais que ímãs
Os ímãs feitos por Leonardo Beltrão, que também é colecionador, vêm com frases poéticas e do cotidiano

Viagens

Todos os ímãs ali expostos foram adquiridos para guardar lembranças das cidades que ele visitou. “Faço questão de trazer um ímã de viagem. Conheço praticamente o Brasil todo. De fora do país, tenho ímãs do Canadá, Grécia, Itália, Espanha, República Dominicana, Argentina, Uruguai...”, lista. 

Em sua viagem mais recente, porém, ele não pôde trazer a lembrança, o que não o impediu de registrar o passeio. “Fui numa vilazinha, chamada Sargi, no Rio Grande do Norte, e lá não tem ímã ainda. Fiquei indignado! Pensei: é um lugar maravilhoso, nunca vi nada parecido. Depois, fui para outra cidade, Natal, e no centro de artesanato de lá comprei um ímã que achei ‘a cara’ de Sargi. Comprei uma caneta, daquelas de escrever em CD, e escrevi ‘Sargi’ no ímã”, conta ele, rindo da façanha. 

Marco Antônio não sabe quantos ímãs possui atualmente, mas acredita que possa preencher a porta por mais “uns quatro anos de viagens”. E quando o espaço acabar? “Já pensei nessa hipótese... Aí, vou ver uma nova porta”. 

Mais que ímãs

Marco Antônio pendurou uma porta de geladeira usada na parede da sala de onde mora 

 

Preço acessível facilita a venda dos ímãs, que acabaram virando ótimos souvenirs

Com o objetivo de espalhar poesias pela cidade, em 2015, o escritor e produtor cultural Leonardo Beltrão criou o projeto “Um Lambe Por Dia”. O trabalho cresceu e, hoje, rende diversos produtos feitos com as frases dos lambes. Um deles é o ímã, uma paixão também de Leonardo. “Tenho uma regra: só faço produtos pelos quais sou apaixonado. O ímã é um deles. Minha geladeira é lotada”, detalha. Para a alegria completa do escritor, atualmente, os ímãs são os campeões de venda entre o seu leque de produtos.

Como os demais produtos de “Um Lambe Por Dia”, os ímãs feitos por Leonardo carregam textos. O feedback, diz ele, tem sido o melhor possível. “O retorno não é só financeiro. Escuto muitas pessoas dizendo que (aquele texto estampado) foi feito para elas. Para mim, é um prazer enorme tocar as pessoas e tornar o ambiente menos caótico com aquele trabalho”, afirma.

Assim como Marco Antônio, o gosto de Leonardo por colecionar ímãs veio das viagens. “Fiz uma viagem pelo mundo (em 2013) durante um ano e passei por 14 países. Foi daí que comecei com a mania de trazer ímã do lugar onde estava”, conta. Entre os preferidos dos cerca de 150 ímãs que o escritor possui, estão as lembranças adquiridas de Laos, Camboja, Istambul e Marrocos.

Venda física e online

Em 2010, o designer gráfico e diagramador do Hoje em Dia João Carlos Spil também decidiu transformar o material artístico que produzia em ímã de geladeira. No entanto, não imaginava que o negócio daria tão certo. “Vi que tinha demanda, um mercado ali, porque o preço é acessível tanto para quem faz quanto para quem compra”, diz ele, que criou a empresa Grudeima. 

No começo, Spil produzia os magnetes a partir de fotografias e desenhos. Hoje, tudo pode virar arte nas mãos dele e o tamanho pode chegar até 40x30 cm. “O último que fiz foi da galinha Pintadinha em grande formato”, exemplifica. 
Além da venda física, Spil resolveu apostar também na entrega online. “Já vendi para vários estados”, comemora. 
E mesmo atendendo um universo mais amplo, ele contra que tem alguns ímãs que estão sempre entre os preferidos dos clientes. “Os ímãs de propagandas antigas e os ligados ao universo do rock são sempre pedidos”, afirma.

Laranja Mecânica, Elza Soares, Nina Simone fazem sucesso

Sem conseguir emprego no campo das artes cênicas, em meados do ano passado, o ator e diretor de teatro Paulo Maffei resolveu criar a Ímãs a Granel. “O ímã sempre rola (vende) e ainda me permite fazer o meu horário e agenciar o trabalho com teatro, que não dá retorno certo”, explica.

Os ímãs têm inspirações na cultura contemporânea. Não por acaso, Maffei elegeu, logo no início, o Edifício Maletta como ponto de venda. Quase toda noite, é possível encontrá-lo no local, a partir das 21h. A escolha casou certinho com o estilo de vida dele, que é também designer. “Gosto do ambiente noturno, de conhecer gente”, diz.

Maffei não faz ímãs personalizados. No entanto, diz aceitar sugestões. É a partir da demanda que cria as edições do produto. 

Entre as criações mais vendidas estão Elza Soares, Nina Simone e os ímãs inspirados no filme “Laranja Mecânica” (1972). 

E, claro, se algum deles não saem do jeitinho que deveria, Maffei já tem destino certo. “Minha geladeira é forrada de ímãs, sendo que muitos são os que deram errado”, conta.

Apesar de o trabalho com ímã não ter relação direta com as artes cênicas, a sua grande paixão, Maffei diz estar satisfeito com o novo ofício. “Sempre curti muito designer, sabia mexer um pouco no Photoshop, no Corel Draw, com imagem fotográfica. O ímã foi uma maneira que arrumei de ganhar dinheiro sem abandonar a arte”, afirma.

Mais que ímãs

João Carlos Spil criou uma empresa para vender os ímãs que faz