Tendo em mãos o currículo artístico de Marcos Veras– especialmente por suas passagens pelo “Zorra”, da Globo, e no fenômeno “Porta dos Fundos”, na internet– o desavisado que ler a respeito de sua participação em uma peça batizada de “Acorda Pra Cuspir”, pode esperar algum tipo de barbaridade cômica, aos moldes de algumas de suas esquetes mais populares.

O monólogo que ele apresenta hoje em Belo Horizonte é sim classificável no gênero comédia, mas possuí camadas de interpretação e densidades narrativas que traçam linhas nítidas de diferença em relação aos trabalhos anteriores do ator. “É um humor mais ácido, provocador”, define Veras.

O título do espetáculo é uma tradução livre para “Wake Up and Smell The Coffee”, montagem original escrita e protagonizada por Eric Bogosian (o capitão Danny Ross na série “Law & Order: Criminal Intent”), nos anos 2000, que tem como foco discutir temas atualíssimos: a sede por ser célebre, a busca pelo sucesso e a obsessão pela fama. “Tive contato com o original através do meu amigo Mauricio Guilherme, que traduziu o espetáculo para o português. Já gostei de cara, porque era algo que vinha buscando. Fazer humor, mas também dizer algo”, lembra Veras.

Nesse sentido, o ator destaca uma questão inspiradora e central no espetáculo: a ambição exagerada. “Falo da pessoa que faz tudo pra conseguir o que quer, independente da ética. A frustração que todos nós passamos por não chegar num determinado lugar da carreira”, ilustra.

No palco, ele vive José Silva, um ator constantemente atormentado com a ideia de sucesso– ou pela falta dele. “Ele é um artista, mas poderia ser um engenheiro, um médico, um comerciante. É um ser humano que se vê refém de um sistema que cobra o sucesso o tempo todo; mais preocupado em parecer feliz do que realmente ser feliz”, explica.

Nesta direção, Veras se apoia em um alvo típico desta condição de visibilidade a todo custo, as redes sociais. “Discutimos todo tipo de comportamento ligado a vaidade, ego, ambição; e tudo isso está potencializado nas redes”, observa o ator. <TB>Assim, não é apenas a escolha de um nome bastante comum que aproxima o protagonista do público. Em um mundo em que todos somos mídia, e podemos deixar nossa “marca” através de postagens no Twitter, fotos no Instagram ou comentários no Facebook, Veras garante que “as pessoas se identificam com a loucura do personagem. Todos nós, em algum momento da vida, já nos comportamos como ele”

E ele acredita que o formato cômico é mesmo ideal para jogar luz nestas temáticas. “O riso é a forma mais gostosa de discutir assuntos delicados, difíceis. O humor tem um poder único de fazer rir, mas também de fazer pensar sobre aquilo”, conclui.

Serviço: Espetáculo “Acorda Pra Cuspir”, com Marcos Veras, hoje, às 21h no Centro Cultural Minas Tênis Clube (rua da Bahia, 2244 –Lourdes). Ingressos de R$ 40 a R$ 100