Uma celebração que vai além da dança e se configura como uma resistência. Palavra essa que norteou os 30 anos de carreira do coreógrafo, bailarino e diretor Mario Nascimento. Nome mais do que reconhecido na história da dança moderna e contemporânea mineira, ele chega a essa data com a estreia do solo “O Homem Invisível”, neste final de semana no CCBB-BH.

“Temos muito pouco a comemorar, pois a cultura passa por um momento muito difícil. Mas vejo como um estímulo para continuar lutando”, comenta. “Nesse momento, celebrar 30 anos é apenas um lembrete de que ainda estou aqui. E acredito que vou continuar por muito tempo”, acrescenta o artista, que tem 50 anos e atribui tanta disposição a sua disciplina e cuidado com o corpo.

O novo espetáculo nasceu do confronto entre a invisibilidade e o existir no mundo. “A dança é responsável pela minha identidade. Ela é meu instrumento de visibilidade no mundo”, reflete. 

Indo além, o solo tem uma essência existencialista e de valorização do ser. “Falo de todos os desprezados pelo mundo. De pessoas que estão à margem”, explica. A montagem é um convite a olhar para o outro. “Todos têm a necessidade de serem respeitados e ter atenção. Essa dança é como se estivesse falando: ‘Me olhe e me aceite como sou’. As pessoas se olham e se falam muito pouco”, observa. 

Para ele, isso é um reflexo da era tecnológica e suas redes sociais. “Estamos em um processo de distanciamento. O espetáculo vem nessa intenção de mostrar que estamos vivos e no mesmo mundo”, comenta Mario, que criou uma relação com o filme americano de mesmo nome, no qual o personagem só é visto quando está com alguma vestimenta. 

“Território Nu”
Apesar de ser um solo, Mario afirma que não gosta de estar sozinho em cena. Sua trajetória é permeada por parcerias com o músico Fábio Cardia e a bailarina e coreógrafa Rosa Antuña, além de encontros com nomes consagrados da dança, como Toshie Kobayashi, Lenie Dale, Fred Benjamin, Redhá Bettenfour, Joyce Kermann e Tony Abbot. 

Por isso, após a apresentação de “O Homem Invisível”, o público poderá conferir a premiada coreografia “Território Nu”. Uma das mais emblemáticas do grupo que leva seu nome, e que fala da necessidade de se ter um território. “Isso é mais importante que o solo. Tenho uma companhia que me permite existir. Eles são responsáveis pela minha permanência”, frisa.

Projetos
Com uma linguagem própria, Mario marcou seu nome na dança de forma independente, e assim continua. Essa liberdade de criação lhe rende muitos convites. Esse ano estreou em São Paulo, “Ziggy”, da Cisne Negro Cia de Dança, no qual desenvolveu uma coreografia inspirado no universo de David Bowie. Dirigiu ainda “À Deriva”, do grupo carioca Intrépida Trupe. 

E prepara o espetáculo “Dois Homens em Conflito”, com Marco de Ornelas, que estreia em Nova York em 2017. “Tenho muitos projetos com outras companhias. Mas nesse momento de incertezas temos que viver um dia após o outro. Não dá para planejar muito”, pondera. 

Serviço: “O Homem Invisível” e “Território Nu”, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450). De 16 a 19/12, às 20h. Por R$ 20 e R$ 10 (meia)