Saudade é palavra de difícil tradução em terras estrangeiras, como é sabido. Difícil mas não impossível: na Alemanha, onde a artista Jade Marra viveu durante alguns meses entre 2015 e 2016, possuí um termo que exprime algo próximo do que nós brasileiros, sentimos: sehnsucht, o desejo profundo por algo ou alguém distante.

Mas talvez Jade tenha conseguido expressar com mais potência este sentimento através de suas criações, mote da exposição que inaugura nesta quinta-feira (25), na Galeria de Arte da Copasa. “Toque” reune uma série de pinturas realizadas pela artista durante um intercâmbio em Freiburg, obras ativadas também pela ausência de sua companheira durante aquele período. “Foi uma época muito solitária, onde eu lidava com uma questão emocional muito forte daquele relacionamento”, diz. “Algumas pessoas tinham esta coisa, de sair viajando pelo país e eu fiquei mais introspectiva. “Eu estava frustrada, não conseguia chegar em algum lugar com minhas pinturas”, revela.

Ao mesmo tempo, esta “extrema imersão” foi uma bela oportunidade para Jade se conectar com sua “veia artística” tendo às mãos uma boa estrutura de ateliê e um grupo de crítica e orientação. Durante as conversas online com a companheira, ela começou a tirar algumas fotos, prints da tela. “Fui colecionando aquelas imagens. Como a gente não podia tirar fotos juntas, aquilo era uma maneira de guardas nossas lembranças. Daí surgiu, foi quase uma explosão, uma coisa intuitiva. Pintei e deixei meio de lado. Uma professora viu a tela e disse ‘Ah, isso funciona, você deveria explorar isto’. Acabei desdobrando numa série”.

Um detalhe fundamental para compor um conjunto foi a técnica adotada para pintar as telas: os dedos. “Eles serviram como uma coisa bastante expressiva, que me tirou de uma espécie de condicionamento em que eu estava de querer pintar de forma super realista, de maneira bem técnica”. O “toque” do corpo humano ofereceu a artista também uma chave de transfiguração afetiva. “Uma maneira de recuperar um contato físico com o material, encurtando barreiras, uma relação direta, próxima, através dos dedos”, diz. Ou: uma possível nova tradução para saudade, na ressignificação da ausência através do fazer artístico.

Além disso, as obras de Marra selecionadas para a mostra também expõem um foco importante para a artista: a representação do feminino. “É um lugar a qual recorro muito. O feminismo é uma coisa muito presente na minha vida. Tudo que eu faço possui uma correlação com ele, às vezes não de forma muito clara. Mas nos trabalhos recentes, tento trazer conceitos de representação da mulher para ir além da sexualização”.

Serviço: Exposição “Toque”, de Jade Marra. Desta quinta-feira (25) até 25 de fevereiro, na Galeria Copasa (Rua Mar de Espanha, 525, Santo Antonio).