Na era das selfies e das pessoas preocupadas com o melhor ângulo, os idealizadores do Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte (FIF-BH) nos chamam à reflexão sobre a imagem que construimos para o mundo e como olhamos para o outro. O convite vem com a exposição “Transversal – Circuito de Imagens no Espaço Urbano”, que ocupa o Parque Municipal, em Belo Horizonte, de hoje a 27 de novembro. 

Ao todo, 36 cliques de fotógrafos de cinco países estarão espalhadas pelo local em totens de 2,5 metros de altura. “A ideia da mostra é pensar sobre nós mesmos e as imagens que tentamos vender ao outro. Como isso pode quebrar ou reforçar estereótipos”, explica um dos idealizadores do projeto, Bruno Vilela. 

Os trabalhos são assinados por Luis Arturo Aguirre (México), Namsa Leuba (Guiné - Suíça), O Zhang (China), Paulo Nazareth (Brasil), Ruud Van Empel (Holanda) e Coletivo Trëma (Brasil). “Buscamos obras que investigam o retrato e como ele se torna modelo para nossa noção de identidade”, resume Vilela.

Uma das séries internacionais é “Desvestidas”, do mexicano Aguirre, uma abordagem da figura dos travestis. A obra mostra simultaneamente a face feminina e masculina como uma forma de quebrar paradigmas. 

Já série “The World is Yours (But Also Ours)”, da chinesa O Zhang, captura os conflitos econômicos e políticos da cultura chinesa atual, dentre eles a crise de identidade vivida pela juventude no país.

 

Diálogo com a cidade
Levar a exposição para o Parque Municipal vai ao encontro da proposta do FIF-BH de dialogar com a cidade. Em 2013, o festival ocupou, além de espaços formais, quatro estações do metrô de BH.

“Queríamos fazer uma exposição onde as pessoas já se encontram. Somente o Parque Municipal recebe, mensalmente, mais de 600 mil pessoas. É uma chance de ampliar o alcance da mostra e promover a reflexão”, considera Vilela.

Esta é a primeira iniciativa do FIF-BH fora do evento oficial, que acontece a cada dois anos. “É uma forma de manter o diálogo com o público e continuar as pesquisas na área da produção de imagem. Nos anos pares, esperamos fazer algo como o Transversal”, planeja. 

 

Elementos da cultura africana e mobilização de moradores inspiram fotógrafos brasileiros
Dentre os brasileiros que participam da exposição está o mineiro Paulo Nazareth, com a série “Cadernos de África”. No trabalho, o artista investiga como a África está presente no contexto dele, ao mesmo tempo em que busca entender quais elementos do próprio cotidiano guardam a mesma relação com aquele continente. 

“Ele costura imagens que temos do negro e do africano. Com isso, quebra estereótipos e nos faz pensar em como nós ‘folclorizamos’ a imagem do outro”, analisa Bruno Vilela, um dos idealizadores do projeto.

 

Tropa de Elite
Outra série brasileira é “A Tropa de Elite”, do coletivo paulistano Trëma. Trata-se do registro de um “exército improvisado” formado por moradores de uma ocupação na comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), no início de 2012 para confrontar a polícia. A foto de homens com armaduras feitas de latão de lixo se tornou símbolo da luta por moradia.

Anos após o ocorrido, o coletivo Trëma decidiu saber quem eram as pessoas por trás das vestimentas. “As fotos tentam criar a ambivalência do discurso que existe entre ocupação e invasão”, explica o fotógrafo Gabo Morales, integrante do coletivo. 

A ideia é mostrar dois personagens que são o mesmo ser humano. “Para o senso comum, os dois lados (com e sem armadura) não existem na mesma pessoa. Ou é uma coisa ou outra. Mostramos que a diferença está no interlocutor”, comenta. Essa é a primeira vez que a série produzida em 2014– vencedora da 13ª edição do Prêmio FCW de Arte – vai para uma exposição. 

 

A exposição fica em cartaz no Parque Municipal (avenida Afonso Pena, 1.377, Centro) até 27/11. Visitação de terça a domingo, das 6 às 18h. Entrada franca