Da África há sempre novidades a reportar”. Com a frase atribuída ao escritor romano Caio Plínio II, o curador Alfons Hug define a exposição “Ex Africa”, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte (CCBB-BH).
A citação selecionada por Hugs não parece ser uma escolha do acaso. Na mostra – que reúne artistas de mais de oito países africanos, além de representantes afro-brasileiros – a arte da África aparece bem distante da etnicidade e do caráter exótico muitas vezes atribuído à produção do continente. “A arte transcende todos os estereótipos e todos os problemas que algumas pessoas provavelmente podem associar a elas”, acredita o ganês Ibrahim Mahama, um dos artistas convidados para a exposição.

Focado em questões globais, o artista traz para a exposição uma versão inédita de uma de suas instalações. Imponente, o trabalho ocupa o pátio central do CCBB reunindo uma quantidade incontável de objetos, além de mais de 1.110 caixotes de feira. “Cada elemento que você vê na obra foi coletado no Brasil. Nada foi trazido de Gana ou de nenhum outro lugar”, destaca Mahama. “Eu tento lidar com uma visão muito local, em termos dos objetos que eu coleto, mas nessa coleção, apresento uma visão que é muito global”, ressalta o artista, que se diz interessado em questões como economia, independência e emancipação.

Utilizando diferentes objetos, como fragmentos de madeira, jornais ou sapatos, Mahama conta que busca sempre representar esses elementos em diferentes contextos, em busca de provocar um novo olhar diante destes materiais. “Na obra original, feita em Gana, utilizei fragmentos de madeira e objetos que coletei em várias partes dos país durante três, quatro anos. Muitas partes vieram de velhas indústrias, que foram construídas durante a independência do país”, lembra. “Estou muito interessado na decadência e na crise contida nesses espaços e em como isso se manifesta nesses artefatos. Eu queria, de alguma forma, explorar isso também aqui no Brasil”, afirma Mahama.

Outro artista que também se debruçou sobre os mais variados objetos é o egípcio Youssef Limoud. “Meu trabalho é uma instalação chamada ‘Maqam’, que é uma palavra árabe de muitos significados. Foi justamente por isso que a escolhi”, diz o artista. “Significa, primeiro, o lugar onde vivemos. Diz também de uma espécie de lugar santo das pessoas sagradas que morreram e, também, se refere as escalas musicais árabes”, explica.

Assim como Mahama, Limoud apresenta uma versão inédita da instalação, feita exclusivamente com materiais coletados no país. “Em cada lugar que faço esse trabalho, dependo apenas do material que encontro. Esse é um ponto importante, porque os elementos que você acha em um lugar específico falam muito sobre a história, sobre a vida e sobre a realidade desse lugar. É por isso que não carrego nada comigo, só dependo do que encontro”, afirma. “A obra tem essa relação com a realidade, principalmente, do que existe apesar da fachada de civilização. Existe ordem e desordem. Eu trabalho com essas duas contradições”, diz Limoud.

Serviço: Exposição “ Ex Africa” no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários), de 11 de outubro a 30 de novembro. Entrada Gratuita