Filmes assinados por diretoras deixaram de ser raridade no cinema brasileiro. Apesar da importante conquista, a cineasta mineira Juliana Antunes enxerga ainda um obstáculo a ser vencido, já que os filmes que entram em cartaz narrativas que geralmente não fogem de padrões majoritários, dirigidos, em sua maioria, por brancas de classe média.

“Tem mais mulheres filmando, mas os editais estão bancando projetos de um mesmo grupo, que são muito parecidos”, lamenta Juliana, que lança hoje “Baronesa”, longa vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes de 2017 e fruto de uma entrega de dez anos da cineasta à proposta – alguns deles dedicados ao crivo dos editais, sem sucesso.
 
“O sistema está viciado”, registra Juliana. “Querem colocar todo mundo no mesmo balaio, mas filmes com filmes com mulheres no protagonismo são raros. Dirigidos por mulheres, produzidos por mulheres, mais raros ainda”, completa a cineasta, que acredita ter feito o primeiro longa em uma lógica não industrial dirigido, produzido e protagonizado por mulheres no Brasil.
Filme Baronesa

Cenas têm aparência natural, mas foram todos muitas ensaiadas

Sofrimento

A narrativa, que transita na fronteira da ficção com o documentário, acompanha duas mulheres da comunidade Vila Mariquinhas, região Norte de BH. Uma delas, que foi estuprada pelo tio e praticou delitos, anseia mudar-se para outra favela (a que dá título ao filme), para fugir da guerra do tráfico de drogas.

“Dediquei um tempo que vai dos meus 20 a 30 anos nele, sem nunca ser remunerada. Foi um trabalho insano, de extrema dedicação, minha e de toda a equipe, e estava muito consciente do que queria fazer”, salienta a diretora, que tirou inspiração das linhas de ônibus que tinham como destino bairros da periferia da capital.

“Vim do interior e me chamava a atenção o fato de as placas mostrarem nomes de mulheres. Com exceção de Lourdes, não há nenhum bairro da zona Sul com nome feminino. Minha intenção era entrar nos ônibus e, chegando lá, conhecer a realidade das mulheres”, lembra.

Durante as pesquisas, o contato com elas nas ruas era difícil, já que prevalecia “a lógica machista que também está presente na periferia, em que devem ficar dentro de casa”. Por muito tempo, frequentou salões de beleza até encontrar as personagens Leidiane e Andreia.

Abertura

Diferentemente de outros filmes que têm esse recorte, o objetivo nunca foi enaltecer a miséria. “Discute-se tudo, trabalho, moradia, maternidade, violência, mas não de forma sensacionalista”, sublinha. 

Apesar de ser ficção, os diálogos são muito naturais, em que se fala abertamente sobre masturbação e sexo. “A mulher transa, goza, usa drogas. Faz tudo o que lhe é negado”.

No próximo filme, Juliana Antunes focará em jovens lésbicas que saem da periferia de BH para verem o mar pela primeira vez, no Rio de Janeiro. “Ao contrário do ‘Baronesa’, em que elas estão entrincheiradas, a relação é com o espaço público, sobre o estar no mundo”, adianta. 

Juliana quer ser a primeira diretora brasileira a focar lésbicas – e, como frisa, sem sofrerem por esta opção. “Estarão juntas e divertindo-se”.