Vai ter muito adulto querendo ganhar ovo de páscoa esse ano. Nesta semana, a Nestlé anunciou edição limitada do extinto chocolate Surpresa, e vários trintões e quarentões comemoraram nas redes sociais. Foram cerca de dois mil compartilhamentos da notícia em poucas horas no Facebook, e cinco mil comentários no Twitter. 

Depois disso, uma nova onda de nostalgia tomou conta da rede, com internautas resgatando outras guloseimas “antigas”, como chiclete Ping Pong e bala Soft. Há alguns anos, fabricantes investiram no marketing saudosista, que trouxe de volta – para alegria de muitos fãs – brinquedos como o Genius e guloseimas como o chocolate Lollo, sucessos dos anos 80. 

“A nostalgia promove a ideia de que a vida tem sentido”, explica o psicólogo Ernane Passos. Segundo ele, o sentimento pode neutralizar emoções negativas e auxiliar a enfrentar desafios do presente. “Traz a impressão de estar ligado a outras pessoas, o que dá a sensação de pertencimento e reafirmação da identidade”. 

Especialista em memória e envelhecimento, o psicólogo comenta que todo esse movimento nostálgico se configura mais como a saudade de uma época do que de um produto em si. “Nessa hora, as diferenças se dissipam. As pessoas se reconhecem como iguais ‘de uma época boa’. Isso é positivo”, avalia.

Youtube
Quando surgiu, em 2005, a rede de compartilhamento de vídeo abriu portas para inúmeros canais dedicados ao passado. Para o publicitário e youtuber Felipe Reis, de 36 anos, foi “alimento” para a nostalgia. 

“Pessoas do mundo todo tiveram fácil acesso a vídeos da infância. Antes, a lembrança era só em rodas de conversa. Agora é visual”, observa. “Aberturas de desenhos animados, comerciais, novelas, tudo isso está no YouTube e é facilmente compartilhado em outras redes sociais, o que aumenta o alcance do saudosismo na <CF36>timeline</CF>”, acrescenta.

Aproveitando a “deixa”, ao completar 80 anos a fábrica de brinquedos Estrela optou por revisitar o passado, ao invés de lançar novidades. Jogos e brinquedos como Banco Imobiliário, Jogo da Vida, boneca Fofolete e a coleção Moranguinho voltarão às prateleiras. 

Mas em grande parte a saudade traz conforto e significado à vida. É o que diz uma pesquisa recente da Universidade de Dakota do Norte, nos Estados Unidos. O estudo atesta que esse sentimento aumenta a autoestima e o bom humor. E vai além, ao dizer que a nostalgia pode literalmente aquecer alguém em dia frio. Vale tentar garante o estudo.

 

Poeta retrata em livro as dores e as alegrias de um tempo que não volta mais

 

“O Peso das Gotas” – Título faz referência ao tempo da contemplação que não existe mais
“O Peso das Gotas” – Título faz referência ao tempo da contemplação que não existe mais


Em tempos acelerados e de relações efêmeras, o poeta paraibano Jairo Cézar mergulhou no passado e deu vida ao livro “O Peso das Gotas”. Recém lançada, a publicação traz poemas que falam de um tempo que não volta mais. 

Nascido no interior da Paraíba e tendo morado na capital, João Pessoa, ele propõe na obra um jogo nostálgico. “A minha infância foi no clima bucólico. O ritmo era outro e as lembranças nunca saíram de mim”, explica.

Dividido em cinco partes, o livro começa com o capítulo “A Infância”, e segue com capítulos onde dialoga com outros autores e poesias com temas diversificados. “Falo de um outro tempo, onde as horas passavam devagar. Relembro a época dos trens e carruagens. Também personagens e histórias que permearam minha infância”, comenta.

Para o autor, o estado nostálgico é mais acentuado atualmente devido à rapidez de informação. “Hoje tudo é muito rápido e não temos tempo para digerir nada. Tudo é imediato”, analisa. 

O que fica é uma melancolia. “Às vezes me sinto um Dom Quixote tentando resgatar uma época que não vai voltar. É como uma fuga”, compara. 

O título da obra faz referência a um sanfoneiro da região e “ao tempo da contemplação que não existe mais”. A própria arte necessita de um tempo de maturação. “Parece que estamos na contramão. Pois a arte pede esse tempo de reflexão e resistência que hoje não existe”, sublinha.

Além de poesia, a publicação traz haicais – técnica antiga de poesia vinda do japão. “É algo que gosto. E me faz lembrar os encontros com o escritor Paulo Leminski (1944-1989). Gera saudade”, garante. 

A obra é um convite para relembrar a beleza daquilo que já não podemos mais tocar, do que já fomos e não mais seremos. “É uma forma de não deixar isso morrer também. Essas lembranças nos guiam pela vida e dão sentido a quem somos hoje. Nos apontam caminhos”, acredita o escritor, que também se dedica à literatura infantil e quadrinhos.