Marchinha é coisa de Carnaval, certo? Não para a dupla Marcheiros, formada pelos paulistas Thiago de Souza e Daniel Battistonni. Afiados, eles já fizeram mais de 30 marchinhas em apenas um ano – isso sem contar as 33 paródias, 12 inéditas. Basta um “agito” no Congresso para a sátira vir logo. 

Dizendo-se apartidários, os dois não dão mole para ninguém. Fizeram piada do sorvete Häagen-Dazs de Michel Temer, da vestimenta de gari do prefeito de São Paulo João Doria, do impeachment de Dilma Rousseff... O difícil é achar um político que tenha ganhado o noticiário nacional e conseguido passar ileso pela dupla.

Olhando para a atual conjuntura, Thiago diz que a crítica e a piada já vêm prontas. Pensando assim foi que compôs a marchinha inspirada na criação do projeto de lei contra a masturbação, do deputado federal Marcelo Aguiar. “O Brasil pegando fogo e vem um cara com uma preocupação dessa?!”, critica o compositor, de 37 anos. 

Thiago de Souza cogita concorrer com "Você Sabe o que é Häagen-Dazs" em concurso de marchinhas:

A despeito da produção profícua, Thiago diz nunca ter planejado virar um compositor de marchinhas. Integrante da ala de compositores das escolas de samba Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro, e Dragões da Real, de São Paulo, o negócio dele sempre foi samba-enredo – apesar de passar mesmo a maior parte do tempo exercendo a advocacia, da qual tira o seu ganha-pão.

A primeira marchinha, chamada “Japonês da Federal”, ele só fez no ano passado, sem grandes pretensões. Ela acabou virando hit e vencendo o concurso da rádio CBN com mais de 50% dos votos. “No início, a gente não tinha intenção de ficar fazendo marchinhas. Mas, depois, continuamos a escrever sobre os fatos políticos, criando com essas músicas um universo paralelo para contar aquele acontecimento de uma maneira cômica, e elas acabaram virando um ‘ponto final’ das reportagens”, diz.

Indignação

Assim como as notícias não param, a dupla é ligeira ao criar, para não perder a piada. “Só tem sentido se for rápido”, afirma Thiago.

Não por acaso, apenas quatro músicas feitas até hoje pelos Marcheiros são infantis e outras três têm temas diversos. O restante tem cunho político. 

Mas apesar de uma certa indignação rondar cada verso, Thiago diz que nunca teve a intenção de ofender nenhuma figura especialmente. “A gente toma cuidado com isso. Não queremos julgar ninguém e não usamos palavras de baixo calão. Tiramos sarro das situações que eles (políticos) geram e não deles pessoalmente”, afirma o músico. “O objetivo é mais treinar a nossa indignação de uma maneira leve. Acho legal que todos entendam o seu papel”, emenda.

 

Vitor Velloso com sua banda Orquestra Royal
É CAMPEÃ! – Com o reforço de Marcelo Veronez (ao centro), os autores Marcos Frederico e Vitor Velloso interpretaram a marchinha “Não Enche o Saco do Chico”, que faturou o 5º Concurso Mestre Jonas e foi vice no 11º Concurso Nacional de Marchinhas da Fundição Progresso, na Lapa carioca

 

Concursos e redes sociais ajudam a divulgar as composições

Neste Carnaval, os Marcheiros pretendem participar de três concursos de marchinhas. Um deles é o belo-horizontino Mestre Jonas, no qual os paulistas vão concorrer com “Presidento Transilvânia”, parceria deles com o mineiro Vitor Velloso, de 34 anos. 

Os versos fazem alusão a Michel Temer e falam de um homem que “montou uma gangue pro inferno governar” e que “muitos sinistros/foi buscar no cemitério/para montar seu ministério”. 

“A gente vai vendo a notícia e, às vezes, tem a sensação que está faltando uma frase para concluir aquele acontecimento. Acho que a marchinha tem muito desse papel, o de tentar resumir os acontecimentos e, se possível, de maneira leve e engraçada”, Vitor Velloso, compositor e administrador de empresas

A paródia “Você Sabe o que é Haagen Dazs?” também é parceria dos Marcheiros com Vitor Velloso. “Algumas que fizemos juntos até tocaram no rádio de São Paulo”, celebra Vitor, que, atualmente, mora na capital paulista. 

Vitor conta que começou a fazer marchinhas há cerca de três anos, quando a festa carnavalesca de BH ganhou novo fôlego. “As marchinhas viraram protagonistas e uma forma para se fazer crítica política bem humorada, coisa que já é parte historicamente desse estilo de música”, pontua. De lá para cá, ele fez mais de dez marchinhas. 

Ouça a marchinha "Solta o Cano" com a qual Vitor Velloso irá concorrer junto a Marcos Frederico ao Mestre Jonas deste ano:

 

Com o músico Marcos Frederico, ele concorrerá também no Mestre Jonas com “Solta o Cano”. “Essa música fala sobre os vazamentos que aconteceram em 2016. Foi difícil decidir o tema, porque o ano passado foi muito intenso, toda hora era uma história nova, mas o tema que nunca saía da pauta era o vazamento”, explica. 

A marchinha será divulgada no site da Orquestra Royal, banda que Vitor ajudou a formar depois do sucesso da marchinha “O Baile do Pó Royal”, campeã do Concurso Mestre Jonas de 2014. “Apesar de termos feito com carinho e cuidado, a vitória foi uma grande surpresa porque era uma brincadeira. Fizemos a música para nos divertir, sem grandes aspirações, mas logo repercutiu muito na internet e dali por diante não paramos mais”, relembra. 

A Orquestra Royal irá fazer apresentação gratuita no dia 21 de fevereiro. O local, ainda a ser definido, será divulgado no site oficial da banda

Disco autoral

Desde então, Vitor foi premiado por suas marchinhas em outras cinco ocasiões. É ainda compositor de outros gêneros musicais. “Neste ano, vou lançar meu primeiro disco, com 11 músicas autorais. Uma parte de MPB e bossa nova e outra tem músicas em inglês e de pop rock”, destaca o músico, cuja profissão oficial é administrador de empresas. “Em algum momento, os dois (ofícios) conversam”, garante.

 

Ouça a marchinha "Presidento Transilvânia", de Vitor Velloso em parceria com os Marcheiros:

 

Além disso

Pode-se chamar de tendência a criação de marchinhas de cunho político. O músico e diretor musical do Concurso Mestre Jonas Thiago Delegado lembra que, no ano passado, várias composições que venceram o concurso traziam essa temática. “A gente está vivendo um momento conturbado e isso é um material precioso para ser explorado e fazer críticas”, comenta.

Para Delegado, dessa forma, as marchinhas têm conseguido cumprir o “importante papel de registrar a história local”. “Daqui 30 anos, vamos ter um retrato do Carnaval de BH e da cidade. Claro, os blocos reavivaram o Carnaval, trouxeram o axé da Bahia, samba, rock... mas não são autorais como as marchinhas”, esclarece, ao dizer que tem expectativas para o concurso deste ano.

Na 6ª edição, o Mestre Jonas recebe inscrições até dia 27/1, e distribui R$ 13.500 em prêmios. Quinze marchinhas serão selecionadas. Dez irão para a final. A finalíssima será durante o Baile de Marchinhas Mestre Jonas, que já tem data e local para acontecer: dia 11/2, no Music Hall (av. do Contorno, 3239).