Não é preciso voltar longo período no tempo para lembrar de artistas que mantiveram a sexualidade em segredo. Apesar de serem muitas vezes protagonistas da música pop, estrelas LGBTQIs levaram décadas para “saírem do armário”. 

Foi assim com o britânico George Michael, que assumiu a homossexualidade apenas em 1998, quase 20 anos depois de iniciar a carreira. Já o norte-americano Lance Bass, da boyband ‘N Sync, que levava as fãs ao delírio no fim dos anos 90, afirmou em entrevista à revista People, somente em 2006, que mantinha a orientação sexual em sigilo para não prejudicar a carreira do grupo.

É possível dizer, no Dia Internacional do Orgulho LGBT, cá em 2018, que, embora a LGBTQIfobia ainda seja realidade mundial, cada vez mais artistas deixam evidente a sexualidade. Com músicos colocando a “cara no sol”, canções e videoclipes da nova geração fogem da heteronormatividade, que antes marcava as produções, e colocam em destaque dilemas, experiências e amores próprios.

Na opinião do jornalista Paulo Proença, que mantém programa dedicado a esse público na Rádio Inconfidência, vivemos um período de maior representatividade na música. “Esse é um movimento que tem ganhado força há alguns anos. Acredito que isso é fruto de uma construção muito importante para artistas LGBTQIs, que agora podem manifestar todas as vivências nas produções artísticas: nas músicas, no visual, estilo de vida, clipes, além da efetiva participação nas redes sociais”, pontua.

Demi Lovato

Demi Lovato

Além de uma liberdade maior aos artistas, ele acredita que a presença de estrelas declaradamente pertencentes ao grupo também traz ganhos para o público, que passa a se sentir representado na música pop através de estrelas que dialogam diretamente com sua existência.

"Estou aberta para conexões humanas, seja através de um homem ou uma mulher", afirmou a estrela pop norte-americana Demi Lovato em documentário sobre a própria vida, lançado em 2017

Embora ressalte a importância da “saída do armário” de músicos, Proença salienta que é importante resgatar as experiências daqueles que fizeram isso anteriormente. “A história da música brasileira é testemunha. Muitos artistas colocaram a arte e os corpos como ato político”, pontua, citando nomes como Renato Russo, Cássia Eller, Cazuza, Leci Brandão, Daniela Mercury, e destacando também experiências queer dos anos 70 e 80, que tiveram como protagonistas Secos e Molhados e, principalmente, Ney Matogrosso.

Orgulho

O empoderamento dos LGBTQIs é um dos principais ganhos de todo esse movimento, aponta o também jornalista Raphael Rocha, de 29 anos, homossexual e consumidor de música pop. “Escutar uma canção sabendo que aquele artista passou ou ainda passa por problemas semelhantes aos meus e está ali, abrindo espaço e chegando a lugares que eu jamais imaginaria que seriam possíveis, é no mínimo libertador”, expõe. 

O êxito desses artistas traz, também, sentimento de orgulho. “Passamos a entender que não há nada de errado em ser quem somos e, principalmente, que no mundo há espaço para todos”, coloca.

“Acompanhar esses artistas crescendo, quebrando tabus e fazendo história na música é extremamente importante, principalmente se levarmos em consideração que a perspectiva conservadora está crescendo no mundo inteiro”, completa o fã.

Leia mais:

Confira 10 jovens artistas que assumiram a sexualidade e representam os LGBTQIs

Gloria Groove

Gloria Groove

Drag queen ressalta a importância da representatividade 

Representante da potente cena drag queen brasileira, a paulistana Gloria Groove é um dos exemplos que reforçam a importância da representatividade LGBTQI. 

Apesar da relação antiga com a música – ela já participou de programas como o de Raul Gil e é filha de uma backing vocal – não foi sempre que Groove soube que se apresentaria “montada”. “Quando eu cantava, muita gente me perguntava: cadê você na TV? ”, lembra. 

A indecisão quanto ao rumo da carreira estava justamente na falta de identificação com o que era apresentado na mídia. “Eu não via artistas dizendo o que estava pensando, tinha a impressão de que eu não existia”, coloca. 

No entanto, os rumos da carreira de Groove mudaram quando ela teve contato com a arte drag. “Quando vi a RuPaul, drag queen conhecida e bem-sucedida, notei que era possível fazer uma coisa incrível e ainda representar a comunidade. Sempre quis canalizar na música algo que me representasse”, conta.

Mas não é somente no visual que a paulistana carrega a representação: nas canções, aborda temáticas do universo LBGTQI. “O fato de eu abrir a boca para tocar nessas questões já é revolucionário. Fico feliz só por ter proferido alguma palavra, tomado uma decisão, onde clamo meu espaço, mostro que existo e toco também outras pessoas”, diz. 

Futuro

Para Groove, a presença de artistas LGBTQIs na música é uma forma de tocar não só a comunidade, mas também a sociedade. “Estamos apontando para um futuro em que possamos ser aceitos e temos que continuar trabalhando muito para que as pessoas mudem a perspectiva sobre a nossa existência”, pontua.

Com o recém-lançado single “Arrasta”, em parceria com o baiano Léo Santana, a drag queen também celebra parceria fechada com a Warner. “Fiquei muito feliz com o convite. É um projeto mundial que pauta justamente a representatividade”, diz.

Além disso, comemora a oportunidade de regravar, com Anitta, o sucesso “Show das Poderosas”. “É uma música icônica, que costumava dançar com amigos na balada e que hoje canto ao lado de alguém que sou fã desde o Furação 2000”, declara. 

No YouTube, o canal de Gloria Groove já acumula mais de 59 milhões de visualizações. Veja o clipe dela com Léo Santana.