Quais aflições e oportunidades se desdobram pelos corredores cinzentos de uma metrópole como Belo Horizonte? Como as angústias, incertezas e atropelos da urbe impactam diretamente em quem nela habita? Essas são algumas das perguntas descortinadas em “Homem Vazio na Selva das Cidades”, sétima montagem da ZAP 18 – que completou 15 anos de trabalho voltado para o teatro e a ação social em julho passado. Ancorado na história de um escritor frustrado e sem inspiração que depara-se e transforma-se com os desmazelos da cidade grande, o espetáculo estreia nesta sexta-feira (10) e vai até domingo (12), na sede da companhia, no bairro Serrano. 

O diretor Gustavo Falabella conta que a figura do escritor (interpretado pelo rapper Shabê) é usada como gancho para discutir assuntos sociais diversos que circundam o cotidiano urbano. “O escritor é um sujeito que é artista, mas não quer mais seguir nessa saga. Só que ele se vê obrigado a continuar, por conta de um contrato com uma editora. Então, vai até a cidade grande onde fica a tal editora para negociar o cancelamento do contrato. E aí percebe, com um olhar externo, as desigualdades e desequilíbrios daquele lugar”, explica. “É um pressuposto para falar da cidade como espaço de conflito, mas também de subjetividade, criando novas rotas e narrativas, tentando tirar prazer e alento em meio ao caos”, pontua.

Falabella conta que os seis atores e atrizes em cena costuram diferentes narrativas em camadas por vezes dissonantes. “Temos diferentes narradores. Um é um homem, faceta cínica e frustrada do escritor ; a outra, uma garota otimista e esperançosa. Acredito que a dramaturgia consegue sobrepor vários caminhos, nem sempre parecidos, assim como na cidade”, reflete, lembrando ainda o deslocamento do personagem principal. “O escritor é vivido pelo Shabê, que é um cara da cena, do palco, mas não do teatro. Ou seja, o personagem se vê estrangeiro naquele lugar e o ator também é um estrangeiro no mundo teatral, de certa forma”, completa.

Para Falabella, o olhar externo e crítico do escritor defronte a cenas cheias de simbolismo consegue explanar como a rotina “normaliza relações de desequilíbrio”. “Brincamos, por exemplo, com a ideia das cores. Há o segmento dos vermelhos, ligados a uma luta de esquerda, mas atrasada, datada; o dos azuis, representantes do capital, donos da editora; e o branco, ironicamente, a polícia, que chega para estabelecer a ordem de um jeito nada fraterno”, conta o diretor. “Sem contar o tirano D’Lamerde, déspota vaidoso que fica no poder  mantendo seus caprichos”.

Serviço: ZAP 18 apresenta “Homem Vazio na Selva das Cidades”. Sexta e sábado, às 20h30; e domingo, às 19h; na ZAP 18 (rua João Donada, 18, Serrano). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).