Nem o céu azul que enfeita Belo Horizonte conseguiu tornar a manhã dessa quinta-feira (18) menos cinzenta. A cidade acordou com a notícia da morte do músico, compositor, produtor e gestor cultural Flávio Henrique Alves de Oliveira. Um dos artistas mais icônicos da geração pós-Clube da Esquina, ele faleceu aos 49 anos, vítima de complicações decorrentes da febre amarela. O caso de Flávio, que atualmente era presidente da Rede Minas e da Rádio Inconfidência, foi o segundo da doença confirmado na capital. Ele estava internado no Hospital Mater Dei desde a última quinta (11) e partiu deixando esposa e uma filha.

Trágica e prematura, sua morte foi lamentada por artistas mineiros de diferentes gerações e segmentos. Afinal, é difícil encontrar alguém do meio que não guarde relações com Flávio Henrique – conhecido por seu talento e caráter agregador. “Foi quem mais abriu portas para nós, dessa geração mais nova da música mineira”, afirma a cantora e instrumentista Juliana Perdigão. “Ele era muito generoso e, como tinha uma idade intermediária entre a nossa e a da turma do Clube da Esquina, teve um papel importante nessa ponte. Figura que foi parceira de Paulo César Pinheiro, de Milton Nascimento, que podia ter ficado só por ali, entre os grandes, mas que foi atrás de novos afetos, sempre se atualizando”, completa.

Parceiro de Flávio no quarteto Cobra Coral, Pedro Morais é prova dessa generosidade. “Depois que nos conhecemos, há 16 anos, toda a minha vida profissional mudou. Ele me ajudou a crescer, a entender o papel transformador da música”, afirma, lembrando que o mineiro produziu seu primeiro disco. “Sou muito feliz e grato por ter tido a oportunidade de viver com ele esses anos”, diz, emocionado.

Obra vasta e plural

Letrista do Clube da Esquina e parceiro de Flávio Henrique em várias canções, Murilo Antunes ressalta a riqueza de suas composições. “Ele é um dos mais talentosos da sua geração. Muito caprichoso, criava saídas harmônicas inovadoras, um descobridor de harmonias”, afirma, destacando seu papel como gestor cultural. “Flávio é da turma dos imprescindíveis. Um batalhador pelos direitos humanos, pelo lado progressista da política. Vinha fazendo uma verdadeira revolução na comunicação pública”.

Perdigão lembra a vastidão da obra de Flávio Henrique – que gravou mais de 180 músicas e deixou oito discos solo, sendo o último deles “Zelig” (2012). “Deixou uma obra extensa, de discos que ficam cada vez mais refrescantes”, afirma. A cantora lembra, ainda, o papel do músico no reflorescimento do Carnaval de rua de BH – uma vez que foi ele quem compôs a importante marchinha politizada “A Coxinha da Madrasta”, vencedora do Concurso Mestre Jonas, em 2012. “Lembro da gente cantando ela juntos no concurso. Eu de madrasta, ele de paletó e bermuda. Uma figura”, diverte-se.

Outro ponto de destaque foi sua abertura para diferentes projetos. Extensa, a lista de parcerias – em palcos e estúdios – começa com Robertinho Brant (com quem ele iniciou a carreira, no grupo Candeia) e passa por nomes como Toninho Horta, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Zeca Baleiro, Ney Matogrosso, Ed Motta, Maria Rita, Marina Machado, Vander Lee, Thiago Delegado, entre outros. “Eu sempre dizia que ele era ‘promíscuo’ profissionalmente, pelo tanto que era aglutinador”, brinca Pedro Morais. “No meu entendimento, mais que o papel político, mais que tocar ou produzir, o ofício do Flávio era mesmo o de compor. E o lastro musical que ele deixa para nós é de uma riqueza singular”, finaliza.

Despedida

O velório de Flávio Henrique vai até às 10h desta sexta (19), no foyer da Sala Minas Gerais (rua Tenente Brito Melo, 1.090. Barro Preto). O enterro acontece à tarde, no Cemitério Parque da Colina, e é restrito a amigos e familiares do artista.