A ópera “O Guarani” entra em cartaz amanhã, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em celebração aos 180 anos de nascimento e 120 anos da morte do autor, o compositor Carlos Gomes (1836-1896). Mas não é só. O público brasileiro poderá também recordar as origens culturais em tempos amargos para o universo das artes, como sugere o maestro e diretor musical do espetáculo Silvio Viegas. 

“Trazer essa obra neste ano, num momento tão difícil historicamente para o nosso país, é fundamental. É um momento no qual é importante a gente estar atento à cultura no Brasil e feita para o Brasil”. 

Natural de Campinas (SP), Carlos Gomes, apesar de, nas palavras de Viegas, ter menos montagens de suas obras do que merecia, está no topo da lista dos principais nomes da cena operística nacional e foi o primeiro compositor do país a ter reconhecimento internacional. A ópera em questão foi a que o sagrou e estreou antes, inclusive, em território estrangeiro, no Teatro Alla Scala de Milão, na Itália, onde o artista vivia no período. 

Por tal motivo, a obra foi escrita em italiano, o que não teria descaracterizado o cunho de veneração ao Brasil. “Ele foi bastante inteligente, pois levou ao palco o exotismo da música brasileira, com temas que parecem modinhas, serestas. Sem contar a própria história em si, que tem a figura do índio”, argumenta o regente.

Inspirada no folhetim homônimo de José de Alencar (1829-1877), dessa forma “O Guarani” versa, ao mesmo tempo, com o popular e o erudito, numa linguagem inovadora para o então mundo de 1870. “Carlos Gomes conseguiu trazer a cultura brasileira aos italianos sem romper demais com a tradição operística da época. Fez algo novo, mas respeitando tudo que já havia sido feito, com uma roupagem que não ofendia aos ouvidos europeus”, pontua Viegas.

Formação da raça brasileira
No palco, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o Coral Lírico de Minas Gerais e os solistas Marina Considera (Cecília), Richard Bauer (Peri), José Gallisa e Mauro Chantal (Dom Antônio), Michel de Souza e Eduardo Sant’Anna (Gonzales), Lucas Ellera (Rui Bento), Matheus Pompeu (Dom Álvaro), Savio Sperandio (Cacique) e Pedro Vianna (Alonso).

A trama se passa no interior do Rio de Janeiro, no começo do século 17, e tem como pano de fundo a disputa entre portugueses e espanhóis, os embates entre os povos indígenas e os colonizadores, além das competições entre tribos. 

No meio de tudo isso, há ainda espaço para o romance quase impossível entre uma jovem portuguesa, Ceci, e um índio Guarani, o Peri. A mocinha, no entanto, está prometida em casamento ao português Dom Álvaro e também é desejada pelo espanhol González e pelo Cacique Aimoré. “Cecília representa a cultura europeia, que se apaixona pela natureza, representado por Peri. Na minha visão, é uma simbologia da formação miscigenada da raça brasileira”, afirma o diretor cênico e de cenografia Walter Neiva.

Reduzir o romance de Alencar, diz Neiva, de forma a mantê-lo claro para o público sem perder a carga dramática, foi o maior desafio. Por isso, o diretor cênico optou por fazer um “raio X” da história, não contando-a de forma “realista”. 

“O público poderá ver a arquitetura sonora de Carlos Gomes e terá uma visão do que está ouvindo. O elenco ficará todo representado na frente, separado do coro, e o cenário é um grande livro, um símbolo da civilização e da cultura que se instalou nem sempre de forma acessível a todos”, adianta. “Terá também uma grande surpresa no final", aguça.


Serviço

Ópera “O Guarani”, 10, 12, 14, 16 e 18/11, às 20h; e 20/11, às 19h, no Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia). Informações: 3236-7400.