Fotografias antigas são um dos recursos visuais de documentários, especialmente ao abordar uma época em que as imagens em movimento não estavam tão presentes em nosso cotidiano. Mas as fotos não se limitam a dar esse suporte documental, podendo se tornar também um dispositivo de rememoração.

Esse é um dos pilares do livro “A Mise-en-film da Fotografia no Documentário Brasileiro e um Ensaio Avulso”, de Glaura Cardoso Vale, uma das organizadoras do forumdoc.bh, festival de filmes documentários e etnográficos realizado há 20 anos em Belo Horizonte. “A fotografia não é só um elemento de cena, uma fotografia na parede”, observa.

O terceiro ensaio (chamado no título de “avulso”) do livro de Glaura Cardoso Vale aborda o trabalho de um dos principais diretores de fotografia do país, Aloysio Raulino, falecido em 2013, debruçando-se sobre a representação da leitura e da escrita no curta-metragem “Inventário da Rapina” (1986), exibidor de uma “câmera que escreve”

Para Glaura, a fotografia pode “abrir um pensamento”, trazendo à cena um ente que já morreu e lhe dando uma segunda chance. Ela cita o filme “Nos Olhos de Mariquinha” (2008), de Cláudia Mesquita e Junia Torres, em que a lembrança, por parte de uma avó, do trauma do neto morto na porta de casa, é uma forma de conferir-lhe visibilidade. 

“Ele deixa de ser um número, um dos muitos jovens negros que morrem na periferia”, assinala a autora, que analisa o uso da fotografia em cena a partir de dois eixos temáticos. Um que ela chama de “Álbum de Família”, em que insere “Nos Olhos de Mariquinha”, “Acácio” (2008), de Marília Rocha, e “Moscou” (2009), de Eduardo Coutinho.

César Guimarães, professor titular de Comunicação Social da UFMG que assina o prefácio, define essa abordagem: “A fotografia, apanhada pelas estratégias de mise en scéne inventadas pelos filmes, surge dotada de uma temporalidade intrincada, portando ao mesmo tempo os traços do passado e as esperanças – sempre incertas – no porvir”.

O outro conjunto de filmes é chamado de “Retratos da Dor”, exemplificado por “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, e “Retratos de Identificação” (2014), de Anita Leandro. Casos em que a dor e a violência sofridas no passado ganhando novo significado, transformando-se em “signos de resistência”, como destaca Guimarães.