Era o ano de 2010, e o escritor Raimundo Carrero comemorava o fato de “A Minha Alma é Irmã de Deus” ter conquistado o Prêmio São Paulo de Literatura, quando foi vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), que o deixou duas semanas na UTI – e com sequelas no lado esquerdo do corpo. O autor pernambucano chegou a ser invadido por um temor: ter que interromper o ofício ao qual se dedica há cerca de quatro décadas. Para sorte de seus leitores, o receio ficou no escaninho do passado. Tanto que lança agora “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo” (Record).

O livro foi escrito em terceira pessoa – três tentativas anteriores eram em primeira, mas o autor percebeu, logo, que não poderiam vingar. É que Raimundo acredita que “a literatura pertence ao campo da arte”. “Escrevendo em primeira pessoa, estaria fazendo um relatório médico, e queria fazer uma reflexão da doença como metáfora da condição comportamental”, explica.

“O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo” é, pois, uma ficção confessional, na qual o autor ecoa suas inquietações e reflete profundamente sobre a relação entre o corpo e a existência. Questionado se conseguiu solver o mistério da existência do corpo, ri e, em tom quase infantil, confessa que ainda não – mas que ainda tem tempo para descobrir.

MÚSICA E TEATRO

“Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito”, pontuou Nietzsche. Não é possível achar frase melhor para definir algumas passagens do livro de Carrero, que endossa o que o alemão falou no século passado ao afirmar, com voz embargada, que o “Corpo é terra e carne”.

Mas não só de intensidades vive Raimundo. Com leveza, ele relata que, no início da adolescência, ainda em Salgueiro, integrou o grupo musical Os Planetas. Mais tarde, já na “cidade grande”, fez parte da banda de rock Os Tártaros, onde tocou durante três anos.

Conta também como nasceu a paixão pelo teatro, por conta do irmão, que fugiu com o circo, deixando para trás uma pequena biblioteca, voltada ao universo da encenação. Foi o primeiro contato com os livros. “Na época, não existiam livrarias nem bibliotecas na cidade, só quando estava mais velho que apareceu uma livraria por lá”. Mas ele já havia se encantado com as artes cênicas: um dos seus primeiros trabalhos foi a peça “Ante Crime”, em Recife.

Palavras de incentivo

E se é verdade que todo bom texto é fruto da inquietação e do incômodo de seu autor, não foi diferente com Carrero. Aos 16, auge de temores e descobertas, a inquietude literária o levou a escrever um conto – esses contos de adolescência, recheados de prematuridade literária. Bem, esse conto Raimundo levou para Ariano Suassuna, que proferiu uma frase que ficou tatuada em sua memória. “Vou ler, e se não gostar, não significa que é ruim. Significa que não gostei”.

O leitor mais otimista pode achar que Ariano adorou o conto. Mas não. Como bom incentivador, disse que Raimundo ainda precisava amadurecer – mas que, naquele conto, já havia traços de um bom escritor.

* Colaborou Cassio Leonardo/ Especial para o Hoje em Dia