“Uma ode ao amor e ao feminino”. Assim o ator e diretor mineiro Diego Bagagal, do Madame Teatro, resume o solo “Salomé”, que estreia hoje no CCBB-BH. Baseada na obra homônima de Oscar Wilde e Richard Strauss, a peça vai além de uma boa história sobre essa personagem bíblica.

“Salomé” de Bagagal fala sobre o feminino, política, violência e sexualidade. Um trabalho afinado com o nosso tempo. “Na maioria dessas obras as mulheres eram putas, más ou santas. E a gente quase não fala dessas figuras femininas”, diz o ator, que fez uma pesquisa histórica para o trabalho.

O processo começou com um “sinal” e durou nove anos. “Oscar Wilde não era um autor que me interessava investigar”, afirma Bagagal. Mas a publicação parecia pular das estantes de bibliotecas que o diretor visitava em Londres, durante uma residência artística em 2007.

Vivências dele na Polônia, na Itália e em Portugal também interferiram no resultado. “São países com forte influência da Igreja Católica, e essa experiência está presente no espetáculo”.

A peça é uma cocriação com o artista português Mickaël de Oliveira (Colectivo 84) e o produtor musical Chico Neves, que assina a paisagem sonora do espetáculo – reunião de sons de deserto, floresta e outros elementos que ajudam a desenhar a dramaturgia. “Ela diz coisas que não estão no texto. E Chico (Neves) a fez com maestria”, assegura Bagagal.

No texto aparecem referências da versão de Oscar Wilde e Richard Strauss de “Salomé”, citações da Bíblia e o conceito de proximidade entre sensualidade, erotismo e morte presentes no livro “O Erotismo”, de Georges Bataille

Além do gênero
O ator comenta que durante a montagem do espetáculo a equipe buscou se conectar ao feminino para realizar o trabalho. “O feminino não se refere ao gênero, mas à sensibilidade e intuição. E isso deixou todos frágeis, no bom sentido”. 

Pitada autobiográfica
Uma vivência pessoal complementa a obra: o primeiro beijo de Bagagal, para ampliar a questão do beijo fatal de Salomé. “Tive que mexer em coisas que me deixam com vergonha para entender essa Salomé. Falamos sempre da mulher como coadjuvante e do LGBT como minoria, quando na verdade é o inverso”, diz o ator.

A ideia é levantar questões e provocar os espectadores com uma obra aberta. “A conclusão da história é do outro. O público é quem vai fechar o espetáculo. Por isso, pode ser um fracasso ou um sucesso”, pontua. “Conseguimos deixar a peça fluida e simples. Para além da história que muita gente conhece”.

Serviço: “Salomé”, solo de Diego Bagagal. De hoje a 20 de março, no Teatro II do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Quinta a segunda, às 19h. Ingresso: R$ 20 e R$ 10 (meia)