Os livros “Holocausto Brasileiro” e “Cova 312” foram uma consequência. Cada uma dessas dolorosas histórias de descaso, violência e abuso do poder público teve como origem uma intensa e longa busca de Daniela Arbex em descobrir a verdade em torno de fatos que “estavam negligenciados”, como ela mesmo diz, e que só vieram à tona devido ao gosto dessa jornalista juiz-forana em ir para a rua.

“Grandes jornalistas fizeram trabalhos incríveis com a ajuda do computador, mas se não tiver o trabalho de campo, fica incompleto”, assinala Daniela, hoje uma das principais jornalistas investigativas do país, ganhadora de vários prêmios por reportagens como a do Hospital Colônia de Barbacena, onde morreram mais de 60 mil pessoas, boa parte sem diagnóstico de doença mental.

Tudo foi feito num pequeno jornal (o “Tribuna de Minas”), em que continua a trabalhar até hoje, sem os recursos exibidos em seriados americanos. Quando ela foi buscar um prêmio no Peru, sentia-se envergonhada por ter gasto apenas R$ 50 numa de suas investigações. “Os organizadores disseram que meu trabalho mostra que se pode fazer um jornalismo investigativo artesanal e eficiente”, recorda.

Quando você pisou pela primeira vez numa redação, já tinha ideia de que iria abraçar o jornalismo investigativo?
Na verdade, ele surgiu de uma maneira muito natural, desde os meus 14 anos. A questão dos direitos humanos sempre me atraiu. Não tinha ideia do que era jornalismo investigativo, mas já na faculdade, as primeiras matérias que fiz eram de maior fôlego, de denúncia. Muito tempo depois descobri que aquilo que eu fazia tinha um nome, uma categoria, era ligado a um jornalismo glamourizado, a uma vitrine.

Daniela está finalizando o terceiro livro, que será lançado pela editora Intrínseca. Sem poder adiantar muito por causa de uma cláusula no contrato de confidencialidade, ela adianta que não será um livro- reportagem. “O assunto surpreenderá as pessoas”, diz
 

Além do interesse por temas sociais, um jornalista investigativo deve agregar outros elementos, como ter conhecimento de técnicas de investigação.
Não adianta apenas fazer um curso de jornalismo investigativo. Esse trabalho exige uma expertise, ter faro. Só se aprende a investigar, investigando. Não tem outro caminho. O fato de trabalhar num jornal pequeno acabou despertando em mim a necessidade de uma apuração muito minuciosa, porque receber um processo grande poderia fechá-lo. Todos os meus chefes foram muito exigentes nesse sentido. A Denise Gonçalves, minha chefe por muitos anos, era muito exigente. Se eu chegava com as informações, ela queria ver os documentos, outras provas. Isso me ensinou a fazer um trabalho de apuração bem documentado. Nunca podemos ficar só no depoimento. Tem que percorrer os cartórios, conhecer os processos, ir no Fórum, frequentar a Justiça e as delegacias, ler boletim de ocorrência e inquérito. Um jornalista investigativo precisa saber manejar as informações. Claro, grandes jornalistas fizeram trabalhos incríveis com a ajuda do computador, mas se não tiver o trabalho de campo, a rua, fica incompleto.

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Hoje há uma rede de jornalistas investigativos no mundo que troca informações e ajuda na apuração de grandes escândalos. Em seus dois livros, embora envolvam casos contundentes só agora descobertos, você já assinalou que não precisou de uma grande operação de investigação, como grampos ou gravações ocultas.
Às vezes, o simples é o mais difícil de fazer. Em alguns casos, basta enxergar, numa informação aparentemente velha, sem importância, o valor de notícia. Tudo depende da forma de olhar. Essa mudança de ângulo pode transformar aquilo onde ninguém vê nada em algo poderoso. Às vezes é algo tão óbvio que jamais foi pensado como em “Cova 312”, quando fui ao cemitério procurar o corpo de um guerrilheiro. Todos imaginaram que, após praticar um assassinato, o Exército teria feito algo mirabolante para esconder o corpo. E no caso de Milton Soares de Castro (militante político que foi torturado pelas Forças Armadas, que noticiaram na época o seu suicídio), não foi. As informações estavam aí o tempo todo, mas negligenciaram o óbvio.

“Holocausto Brasileiro” virou série de TV e filme, produzido pela HBO (foi a segunda produção original do canal), teve direção da própria autora, ao lado de Armando Mendz


Grandes reportagens podem surgir de algo aparentemente banal como uma conversa dentro do táxi, como aconteceu com você no caso Koji, não é verdade?
Não se pode perder o pé na rua. Digo sempre que todo repórter tem que passar pela editoria de polícia primeiro, porque lhe dá um jogo de cintura enorme, podendo abordar qualquer assunto. Já ouvi histórias de colegas muito experientes que encontraram números incríveis no computador, mas que não conseguiram entrevistar pessoas. O mundo virtual nunca irá substituir o trabalho de campo. Uma das minhas reportagens mais premiadas aconteceu assim, jogando conversa fora numa corrida de táxi, quando descobri que o presidente da Câmara de Vereadores era proprietário de uma empresa que prestava serviço para a Câmara. Fui para a frente do computador e procurei os nomes, trocando as letras, até localizar a Koji, caindo direto nos atos do governo e nas licitações vencidas por essa empresa para várias secretarias de Juiz de Fora. Fui confirmar na Junta Comercial, para saber o quadro societário da empresa, mas lá estavam vários laranjas. Como provar a relação do presidente da Câmara com a empresa? Fui de novo para a rua e achei a prova fundamental: na Justiça do Trabalho havia um processo de uma empregada doméstica contra ele. Depois vi que ele nomeou a secretária executiva da Koji como representante dele para qualquer assunto. Foi assim que ele caiu.

Como escreveu certa vez o jornalista escocês Andrew Jennings, o jornalismo investigativo está no coração. Muitas vezes, envolve um sacrifício pessoal muito grande. É verdade que, quando você apurava as informações que, mais tarde, resultaram no livro “Holocausto Brasileiro”, você bancou os custos dessa investigação?
Eu tinha visto as fotos do Hospital Colônia de Barbacena e ficado impressionada com o fato de o lugar ter virado um campo de concentração por tantas décadas. Resolvi que tentaria encontrar sobreviventes. O “Tribuna de Minas” é um jornal diário, não poderia me liberar naquele momento e fui fazendo outras coisas enquanto levantava informações por conta própria. Isso durou dois anos até conseguir vender a pauta e mergulhar nesse universo. Quando consegui a liberação, muita coisa já estava apurada. Se a gente esperar por melhores condições, como carro, fotógrafo, tempo e dinheiro, não faremos nunca. Independentemente de crises, redações sempre foram enxutas. Não é igual seriado americano, em que os jornalistas têm tudo à disposição. Nunca tive nenhuma facilidade. Quando recebi, no Peru, o prêmio IPYS (de Melhor Investigação Jornalística de um Caso de Corrupção na América Latina e Carib e, em 2009), os organizadores disseram que meu trabalho mostrou que é possível fazer uma investigação artesanal e eficiente. Não imaginava que iria ganhar. Quando os concorrentes se apresentaram no seminário, falavam de valores como US$ 10 mil para uma investigação. Fiquei apavorada, pois só tinha investido R$ 50, que foi quanto gastei para xerocar alguns documentos.