A mineiridade ganha destaque no Palácio das Artes. Com uma abordagem que passa pelo barroco e pela religiosidade, a exposição “Estado de Sítio”, do multiartista Eder Santos, abre nesta quarta-feira (23), na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, e a mostra “Marcier 100”, em homenagem ao centenário de Emeric Marcier, ocupa as galerias Arlinda Corrêa Lima e Genesco Murta a partir desta sexta. 

Usando a tecnologia como suporte e o barroco como inspiração, em “Estado de Sítio”, Eder Santos critica e faz poesia ao levantar questionamentos por meio de seis obras – quatro inéditas. O próprio título da exposição sugere reflexão e dá nome à instalação na qual mostra o banho de um homem a partir de imagens projetadas em um monólito de vidro. O indivíduo assiste ao seu reflexo na água, numa alusão ao narcisismo. 

A instalação faz ainda um paralelo com a conjuntura política atual. “É uma referência ao que estamos vivendo, a esse praticamente estado de exceção, que se propôs a acabar com a educação e com responsabilidades do governo”, afirma Santos.

Já a série “Todos os Santos” é uma menção ao catolicismo. Numa das obras, São Sebastião – encenado por Daniel Viana – aparece amarrado em um tronco e tem o sexo ora coberto, ora descoberto em meio a efeitos visuais. “O santo é uma figura polêmica, que hoje tem seu lugar até questionado por outras religiões.

O sincretismo religioso está sendo negado”, considera. A religião está presente ainda em “A Casa dos Sinais Flutuantes”, espécie de visão pós-moderna das casas de Ex-Votos, espaços das igrejas onde os devotos pagam promessas e/ou agradecem as graças alcançadas.

100 anos de Marcier

O sagrado também está presente na obra de Emeric Marcier. Romeno naturalizado brasileiro, o pintor era judeu e se converteu ao catolicismo. Inclusive, foi depois de pisar em solo mineiro que o artista despertou para a arte sacra. 

Não por acaso, a curadoria, assinada por Edson Brandão, colocou em destaque telas das vias-sacras e da Pietá (Nossa Senhora da Piedade). Os trabalhos estão incluídos na seção “O Coeli” (céu, em latim). “O céu é onde estão as subjetividades da vida e de Cristo, das cenas bíblicas”, diz.

Ainda conforme o curador, Marcier abordava Cristo não só para elevar a religião, mas, também, para fazer metáforas com o homem. “Quando ele pinta Cristo, fala do homem comum e do seu calvário na terra”, esclarece.

Já na seção “Terrae” (terra, em latim), foram reunidos trabalhos como paisagens das históricas Tiradentes, Ouro Preto e Mariana, além de pinturas de figuras humanas. 

Ao todo, são cerca de 70 obras. As pinturas em afrescos, porém, ficaram de fora. “Não tivemos como trazer essas coleções para a galeria. Qualquer recursos seria um ‘fake’, porque o afresco é fluído, vivo. Fomos honestos em não tentar reproduzir essa arte”, justifica o curador. 

Ainda assim, Brandão considera que a exposição fez “justiça a Marcier”, criticado por ter sido um alienado por não fazer conexão com sua época. “Isso é mentira. Durante o regime militar, ele fez denúncias, inclusive sobre as torturas, ao pintar quadros como São Sebastião do Rio de Janeiro, mostrando o santo sendo eletrocutado”, exemplifica. 

A mostra permanecerá em cartaz até janeiro do ano que vem como forma de celebração dos 100 anos de nascimento de Marcier completados neste mês. “Marcier foi um caso à parte na arte, porque nunca se filiou a correntes como a cubista ou surrealista. Ele criou uma linguagem própria. Era um pintor sacro, mas não devocional. Era um estrangeiro no Brasil e um brasileiro na Europa, como o próprio se definia”, finaliza Brandão. 

Emeric Marcier
Emeric Marcier – “Casamento da Virgem” é uma das cerca de 70 obras que compõem a mostra comemorativa

 

Serviço:

Estado de Sítio”, de Eder Santos, de 23/11/2016 a 22/01/2017.

“Marcier 100”, de 25/11/2016 a 15/01/2017.

Ambas no Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537). Gratuito.