Fazer palhaçada é coisa séria. Transgressor desde as origens, com a figura do Bobo da Corte zombando das ações do rei, durante a Idade Média, o palhaço vem se aproximando cada vez mais das partes oprimidas, como aponta a segunda edição da Mostra Tudo.
 
Com abertura neste domingo (veja programação ao lado), a mostra não ficará restrita à palhaçaria tradicional, aderindo a novas linguagens. Um exemplo disso é o espetáculo “Blitz – O império que nunca dorme”, da santista Trupe Olho da Rua, que aborda a opressão da Polícia Militar.
 
“A comicidade pode estar em outros lugares, com o humor sendo trabalhado como reflexão”, salienta Diogo Dias, organizador da Mostra Tudo e integrante da Cia. Circunstância. Para ele, os problemas sociais podem ser levados ao palco de maneira lúdica.
 
Arte e política
“Às vezes o público nem percebe que estão falando de política, no sentido de acordar o mundo para questões que dizem respeito ao próximo. Qualquer arte é política”, destaca Dias. O artista ressalta, porém, os perigos de uma abordagem mais direta, dentro de uma realidade bipolarizada.
 
“Alguns parceiros mais ligados ao circo tradicional, formato que depende do público, não gostam de tocar nesses assuntos políticos por receio de gerar antipatia na plateia, dividindo opiniões. É quase uma aversão”, pondera o organizador da mostra.
 
Piadas tradicionais sobre gêneros também precisaram ser revistas. “O palhaço traz uma visão crítica das regras impostas, indo na contramão da boiada. Mas é necessário se adaptar ao tempo. Nossas tradições estão impregnadas de um modo de pensar de milênios de anos”.
 
Considerada uma gag (piada) clássica até cinco anos atrás, a homossexualidade merece agora maior cuidado, dependendo do local de apresentação. “Não podemos fazer com que o oprimido seja a vítima do riso. A intenção é ser engraçado para todo mundo. Uma piada pode reforçar preconceitos”, alerta.