Uma das expressões mais consagradas na gramática do cinema é “film noir”, no sentido de se referir a um gênero específico: as narrativas policiais, especialmente dos anos 30 em diante. Mas a tradução literal do francês – filme negro – parece fazer ainda mais sentido com a estreia de “Pantera Negra” nas salas de exibição de todo o mundo nesta quinta-feira (15).

O motivo é simples de se entender: trata-se de uma celebração visual à cultura negra poucas vezes vista no enquadramento hegemônico da indústria, ou seja, em um filme hollywoodiano. Mais do que uma película – já bastante consagrada por instâncias de crítica como o site Rotten Tomatoes, que na semana passada divulgou que o filme atingiu 100% de aprovação entre seus usuários –, a nova produção da Marvel se estabelece como uma evento de grandes proporções. De acordo com dados publicados pelo Box Office Pro, a previsão inicial de bilheteria aponta uma abertura de aproximadamente US$ 90 milhões na América do Norte. 

O cineasta mineiro Gabriel Martins– um dos poucos negros no setor– engrossa o coro destas expectativas e das celebrações em torno do filme. “Estou aguardando ansioso. Para além da questão política, da representatividade, acho importante sublinhar que se trata de um elenco fantástico em um filme de grande orçamento e que já está batendo recordes de pré-vendas. Ou seja, seu evento não é determinado apenas por quem se interessa pelas questões raciais”, acredita Martins. 

Primeiro super-herói africano nos grandes quadrinhos norte-americanos, “Pantera Negra” se propõe a ser a tradução cinematográfica da história de T’Challa, príncipe de Wakanda, um reino fictício na África. Ao perder o pai, ele viaja para os Estados Unidos, onde tem contato com os Vingadores, franquia de heróis da Marvel. 

Representatividade

Criado no fim dos anos 60, só agora o personagem ganha protagonismo nas telonas. “É claro que o surgimento deste filme tem a ver com mudanças na sociedade”, acredita Martins. “Os grandes estúdios não investem em temáticas assim, apenas como aposta. Existe um entendimento de que os espectadores querem ver coisas diferentes, diante de um possível esgotamento dos filmes de super-heróis, por exemplo”, suspeita o cineasta. 

E, naturalmente, a questão da representatividade não é passível de ser ignorada. Reunindo um elenco principal estrelar e totalmente negro, com destaque para as presenças de Chadwick Boseman como o protagonista, além de Lupita Nyong’o, Forest Whitaker e Angela Bassett, “Pantera Negra” é uma oportunidade de “apresentar em grande escala”, como aponta Martins, exemplos para a nova geração. “A coisa muda em termos de referencial. Para um garoto ou uma garota, na prática, existe um espelhamento. Não necessariamente como uma visão de mundo, mas como uma fantasia mesmo, a possibilidade de se reconhecer nos heróis, nos bonecos de brinquedo. Personagens que se parecem com você, e que não estão em um lugar de coadjuvante, de alívio cômico. Em filmes como ‘Pantera Negra’ não vemos uma ‘cita negra’ e sim um elenco variado, com diversos personagens negros, diferentes entre si”, destaca o cineasta.