Você deve estar se perguntando o que o Grupo Galpão e os Rolling Stones têm em comum. A resposta se resume a três palavras mágicas: unidade, longevidade e produtividade. De um lado, a célebre banda de rock britânica soma 55 anos de história, sendo 47 com os mesmos quatro integrantes. Do outro, a trupe de teatro mineira completa, neste ano, seus 35 aniversários, 22 deles celebrados pelo mesmo elenco, formado por 12 atores. No que toca a intensidade da produção artística, os grupos voltam a se encontrar: se os Stones já lançaram 26 álbuns de estúdio, o Galpão já deu cria a 23 espetáculos, assistidos por quase dois milhões de espectadores. Para celebrar essa profícua trajetória com muita satisfação, o grupo prepara uma turnê comemorativa que abarca cinco espetáculos e passa por cinco cidades brasileiras, começando por Belo Horizonte, entre 8 e 29 de junho.
 
Na cidade natal da trupe, a programação se inicia com três espetáculos de rua que acontecem na Praça do Papa, com entrada franca, respectivamente nos dias 16, 17 e 18 de junho: “Os Gigantes da Montanha”, “De Tempo Somos” e “Till, A Saga de um Herói Morto”. Em paralelo, o Galpão apresenta as montagens de palco “Nós”, entre 8 e 11 de junho, no Teatro Sesiminas, e “Tio Vânia (Aos que Vierem Depois de Nós)”, de 22 a 25 de junho, no Teatro Francisco Nunes. A celebração termina no dia 29, quando “De Tempo Somos” ganha o palco do Teatro Raul Belém Machado. 
 
Para Eduardo Moreira, a programação mostra que o Galpão vem trabalhando, nesses 35 anos, com afinco e entrega. “O que fazemos é um teatro de pesquisa, de experimentação, que busca criar movimento e trocar conhecimento. São espetáculos que falam do Brasil, da nossa época, sob a perspectiva desses 12 atores que agora estão com seus 50, 60 anos”, afirma o ator, em entrevista coletiva para a imprensa, na manhã de ontem. “Cada espetáculo representa um determinado desafio para nós. Estar em cena é sempre um jogo que exige muita vida, muita concentração e entrega, para que não sejam somente atos de mera repetição”, diz 
 
Desafios
Mas como alcançar primor artístico e renovação junto à mesma formação há 12 anos? “Basta ser verdadeiro”, sintetiza Antonio Edson. “A resposta para a nossa longevidade artística está na disposição de se colocar em desafios. Quando vamos criar, sempre partimos da pergunta: ‘O que a gente ainda não sabe fazer’? Mais surpreendente que um ou outro espetáculo é o fato de o grupo se jogar em propostas desafiadoras como a dessa turnê”, sublinha Chico Pelúcio. “Ainda mais num momento tão difícil para o País, em que há um complô para acabar com tudo o que é pensante. Tivemos que lutar para fazer essa comemoração”, emenda Inês Peixoto.
 
Conforme lembra a trupe, outra característica do Galpão é a relação afetiva com a plateia. “É uma relação sem quarta parede”, define Antonio Edson. “O público do Galpão não vai a um ou outro espetáculo. É um público que acompanha o grupo há 35 anos. Há pouco tempo uma espectadora me disse: ‘Como é bonito ver vocês envelhecendo em cena’. Realmente, no Brasil, é uma experiência única”, afirma Moreira, lembrando que o Galpão é o único grupo com o mesmo elenco junto há tanto tempo. 
 
“Ao longo desses anos, formamos uma legião de desencaminhados. Gente que mudou de profissão, que fugiu de casa para fazer teatro”, brinca Pelúcio. 
 
Moreira lembra que, além da formação, os próprios espetáculos do Galpão, inclusive os de rua, são longevos. “Foram mais de 300 apresentações de ‘Molière’, ‘Romeu e Julieta’ e ‘A Rua da Amargura’. No caso de ‘Molière’, durante 12 anos seguidos. Sem contar que em algumas cidades brasileiras nós já apresentamos todo o nosso repertório”, afirma o ator, defendendo que o teatro do Galpão é “calcado no coletivo”. “Não temos um comando, um diretor fixo. Estamos juntos porque acreditamos no projeto coletivo e porque o teatro é caro a nós. É o que sabemos fazer”, finaliza Pelúcio. 
 
Disco
O início das comemorações também marca o lançamento do disco da trilha sonora da peça “De Tempo Somos”, que solidifica a relação estreita entre música e artes cênicas, uma das marcas registradas do Galpão. 
 
O álbum, que será vendido em todas as apresentações da turnê, tem produção musical de Chico Neves e traz canções de sucesso do repertório de espetáculos do grupo, como “Flor, Minha Flor”, de “Romeu e Julieta”, e “Canção dos Atores”, de “Um Molière Imaginário”.