O check list de viagens de uma companhia teatral paulista ganhou um novo tópico, além dos figurinos e cenários separados antes do embarque para novos palcos. Trata-se de uma espécie de retaguarda jurídica, acionada anteriormente a cada cidade onde eles desembarcam. “Temos uma equipe em Belo Horizonte com a gente. Estamos na expectativa de que a peça aconteça, porque há um público nos esperando com muito carinho”, diz Natalia Malo, diretora de “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, espetáculo que será– esperamos – apresentado hoje dentro da programação da Ocupação Transarte, na Funarte (Rua Januária, 68–Centro), às 20h.

A “culpa” por este acréscimo inusitado na produção do espetáculo pode ser creditada à temática. Ou melhor: à reação que o conteúdo, a encenação de um Cristo transexual, tem causado, especialmente depois de ter sido barrada pela Justiça em Jundiaí, em 16 de setembro. “Desde o início tínhamos vozes dissonantes, conservadoras. De um ano pra cá a coisa ficou mais forte”, lembra Malo. “Já havíamos recebido algumas ameaças antes, mas lá foi a primeira vez que conseguiram censurar a peça. O que era uma visibilidade excessiva se transformou em reação histérica”, classifica Malo.

Nesta direção, “O Evangelho...” ganhou a chancela de um “acontecimento público”, muito além de seu caráter artístico. Um processo assumido como “cansativo” pela diretora, de alguma tensão e demanda emocional.

Políticas
A peça, que foi encenada no Festival Internacional de Teatro (FIT), em 2016, volta à capital mineira, dois dias depois do Tribunal de Justiça de São Paulo derrubar a liminar que proibia a exibição do espetáculo na cidade do interior paulista.

Uma vitória diante da “patrulha”, uma vigilância que não diz de uma caretice e sim de uma “agenda política, de grupos que criam narrativas distorcidas sobre o conteúdo do nosso trabalho e que servem a certos discursos da do sociedade”, acredita Malo. Para ela, a força desta polêmica se concentra muito nas redes sociais– em postagens que replicam notícias, os chamados robôs– e menos nas audiências do espetáculo. “Quem é ‘contra’, não vai assistir, não se dá ao trabalho. Já existe a pré- indisposição”.

Assim, como conta a diretora, a peça, que já começou muito política a partir de sua temática foi inspirando atos maiores de resistência. Escrito pela trans escocesa Jo Clifford, “O Evangelho...” é um monólogo protagonizado pela atriz trans Renata Carvalho no papel de Jesus e faz, segundo a diretora, “uma reflexão sobre a mensagem cristã, sobre a essência e a relevância dela hoje, quando olhamos para a violência de gênero”, onde encenam-se interpretações de parábolas bíblicas à luz destas questões. “Estamos criando aliados neste processo, e estar hoje à noite na Funarte, é estar em um espaço de resistência, de confronto as normas. É isso que tem acontecido, onde quer que vamos”, garante.

Deputado joão leite sinaliza ação judicial contra o espetáculo em BH

O deputado estadual João Leite (PSDB), através de seu assessor, indicou que pretendia entrar com um ação para impedir a realização da peça. Procurado pela reportagem na tarde de ontem, Ricardo Coutinho, assessor do político, informou que Leite não tinha posicionamento definido sobre a ação, e se encontrava em reunião com outros parlamentares cristãos para avaliar medidas. A princípio, se discutia uma “ação coletiva, baseada no artigo 208 do Código Penal, alicerçada no escárnio da fé pública e da crença religiosa”. Não tivemos resposta do deputado até o fechamento desta edição.

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