Mário Alves Coutinho cita o poeta Ezra Pound para explicar o longo tempo em que “Um Corpo que Cai” (1958), de Alfred Hitchcock, esperou para ser reconhecido, tornando-se o melhor filme de todos os tempos – eleito pela conceituada revista inglesa Sight & Sound– mais de meio século depois. “São mais valorizados os inventores de linguagem. Hitchcock não era um inventor, mas dominava a linguagem com maestria absurda”, afirma.
 
No livro dedicado ao filme, “Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock ou o Perverso e o Sublime” (ETM), que será lançado amanhã, às 17h, na Livraria da Rua, Coutinho explica que este novo status é justificado pela pós-modernidade, “onde se copia e se cita tudo”. 
 
Mas o carinho do autor pelo longa vem desde o seu lançamento, quando tinha apenas 12 anos. “O filme é uma paixão, eu diria, juvenil, que ainda me surge misteriosa”. Coutinho sublinha que a paixão não basta para compreender uma obra, mas é essencial, servindo como combustível para buscar uma certa racionalidade. 
 
Entre as questões discutidas no livro está uma questão muito atual: a discussão sobre o que é realidade. “De acordo com Nietzsche, a realidade não existe, mas sim versões da realidade. No filme, isso é traduzido no amor do protagonista por uma cópia, mas que é real”.
 
Para quem não conhece a história: um detetive é contratado para vigiar uma mulher (Madeleine) que, aparentemente, é possuída por um antepassado. No final, ele descobre que tudo não passou de armação, com uma operária (Judy) se fazendo passar por outra pessoa. “A Madeleine existe, na versão de Judy. Ela existe para o detetive, sendo a realidade para ele”, destrincha Coutinho.
 
Ambivalência
Para o escritor, “Um Corpo que Cai” também ajuda a desmistificar um pouco a ideia de Hitchcock como antifeminista. “Para muitos, ele só explorava a sexualidade feminina, para ganhar dinheiro. O filme, porém, faz uma denúncia contra a violência ao mostrar que tanto o antepassado de Madeleine, como Judy, são torturadas e mortas”, analisa.
 
O autor também enxerga apropriações de elementos surrealistas, a partir da discussão do amor desmedido nutrido pelo detetive. “Hitch já tinha trabalhado com Salvador Dalí, que criou os créditos de um filme dele, e nunca escondeu a admiração pela perversão vista nos trabalhos de Luís Buñuel’”, ressalta.
 
Serviço: Lançamento de “Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock ou o Perverso e o Sublime” – Amanhã, às 17h, na Livraria da Rua (R. Antônio de Albuquerque, 913, Savassi). Haverá exibição do filme e debate após sessão de autógrafos.
 
 
cronicas

Livro de Paulo Roberto Barbosa reúne ensaios publicados em revistas diversas

 
 
Cinema mudo é destaque em livro que será lançdo hoje

 

Assinado pelo professor e ilustrador Paulo Roberto Barbosa, “Crônicas do Cinematógrafo: Escritos sobre Cinema e Fotografia” será lançado hoje, a partir das 18h, na Quixote Livraria e Café, pela editora Relicário.

O livro é uma reunião de ensaios já publicados que enfocam, principalmente, o período do cinema mudo, no início do século XX, a partir de nomes que construíram a linguagem do cinema, como o francês Georges Méliès e o americano D. W. Griffith.

“Os primórdios são um tema fundamental para quem quiser entender por onde passa essa linguagem, até porque Hollywood continua adotando o mesmo regime narrativo”, salienta o autor, formando em Artes Plásticas pela UFMG.

“Crônicas do Cinematógrafo” refazer um “curto percurso intelectual”, entre 2014 e 2017, em que Barbosa publicou em diversas revistas sobre cinema e fotografia. Além do cinema mundo, o livro se debruça ainda sobre o cinema do mineiro Fábio Carvalho.

“Faço esse salto na cronologia à medida que precisei enveredar por outros caminhos. O livro tem esses dois momentos diferentes: um primeiro dedicado ao cinema mudo e outro em que busquei referências nacionais”, explica.

Para ele, Carvalho apresenta o trabalho mais interessante feito em Minas Gerais desde os anos 80. “Não vejo outro nome com esse destaque. A minha sorte é que ele é uma pessoa acessível e pude examinar o trabalho dele ao longo de muitos anos”.

A publicação também conta com dois artigos sobre fotografia, um deles a respeito do octogenário foto-estúdio Zatz, especializado em fotos para documentos, que se tornou um símbolo cultural e afetivo de Belo Horizonte.

Serviço: “Crônicas do Cinematógrafo: Escritos sobre Cinema e Fotografia”, de Paulo Roberto Barbosa. Lançamento hoje, a partir das 18h. Na Quixote Livraria e Café (Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi).