gamarra

Gamarra conta que a casa segue regras de convívio, a fim de manter o ambiente respeitoso e sustentável

Na paisagem da Vila Dias, às margens do bairro de Santa Tereza, uma casa ampla e colorida se destoa das demais. Em frente ao local, uma mini Kombi vermelha e branca, enfeitada com nariz de palhaço e os dizeres “Circo Itinerante”, divide espaço com algumas bicicletas. Do outro lado da calçada, nota-se uma incipiente horta montada no canteiro da rua. Quando saem pela porta dois estrangeiros, conversando em espanhol, fica claro que ali há algo diferente – e pulsante. 

Trata-se da Casa Circo Gamarra, espaço criado pelo artista circense argentino Diego Gamarra, radicado em Belo Horizonte há 15 anos. O lugar, onde Gamarra mora com o filho, funciona como um centro de acolhimento de artistas de rua e viajantes que pairam sobre a capital. “Um porto-seguro dos ‘viajeiros’”, explica o artista de 40 anos, com seu sotaque portenho. Construído no últimos dez anos, de forma colaborativa e com materiais descartados, a casa conta hoje com oito quartos, seis banheiros e três cozinhas, além de um picadeiro para os circenses ensaiarem sua arte.

A ideia surgiu depois que Gamarra viajou pela América Latina fazendo espetáculos de rua por mais de cinco anos. “Sempre sentia a necessidade de um lugar para ficar por alguns meses sem burocracia, treinando minha arte, reparando cenários e trocando ideias com outros artistas”, diz. “Então criei esse espaço libertário, aberto à criação, sem horário para fechar, e que também é uma casa. Há essa harmonia entre um lugar para desenvolver trabalhos artísticos e uma moradia”, explica.

gamarra

Construído de forma colaborativa, o espaço conta com um picadeiro para os artistas circenses ensaiarem

Intercâmbio e energia

Gamarra conta que no início oferecia estadias em contrapartida ao trabalho dos hóspedes, já que a obra precisava de muitas mãos. Com a estrutura levantada, passou a cobrar metade do preço do hotel mais barato da cidade. “Tudo é energia e intercambio, não pode ser gratuito. Manter o sonho utópico de um lugar colaborativo e ao mesmo tempo sustentável, limpo, respeitoso, é o desafio”, pontua, destacando que o espaço segue regras de convívio. “É a minha casa. Então, da mesma forma que é fácil entrar, é fácil sair. É um barco aberto, mas com um capitão”, diz, ressaltando que a maioria dos artistas se mantém com apresentações nos semáforos da cidade.

Figura conhecida da cena artística de BH, Gamarra foi professor do projeto “Fica Vivo” por dez anos. Participou de grupos como o Doutores da Alegria e circula com espetáculos como “Fakirak”, que tem participação de residentes da casa. “Na maioria das vezes, as trocas são muito produtivas. O dia-a-dia de quem está viajando é mais intenso, fora da zona de conforto”, afirma. “Quando você não está na sua cidade, não quer ficar em casa vendo seriados. Quer expandir, trocar conhecimento. E a casa é propícia para isso. Difícil é descansar”, brinca, revelando que, no momento, a casa abriga 12 artistas, de lugares como Colômbia, Uruguai, Chile, Argentina e Itália.

Gamarra revela que o espaço sedia eventos próprios – como a Semana Gastronômica do Imigrante, quando os hóspedes cozinharam comidas típicas de seus países. “Isso gera movimento e ajuda nas despesas. Mas a casa continua sendo um lugar de criação, mais que uma espaço de shows”, afirma, lembrando que boa parte dos custos são bancados com recursos próprios. “É um projeto a longo prazo, sem pressa. Tem sido assim desde que comprei o terreno. Como um bambu que fica muito tempo embaixo da terra para depois crescer e florescer”.

gamarran

O artista uruguaio Max Barreiro decidiu, há quatro meses, "viver o sonho" de Diego Gamarra 

Sonho comunitário

A troca com a comunidade da Vila Dias é outro foco da Casa Circo Gamarra – e ideias como a horta comunitária e a “Escola Nômade de Skate” cumprem esse papel. A iniciativa do uruguaio Maximiliano Barreiro, 27, visa ensinar skate para as crianças e acontece sempre aos domingos, na Rua Conselheiro Rocha. Um dos atuais residentes, Max vive em BH há quase dois anos–sendo os últimos quatro meses na casa. “Viajei durante quatro anos. Passei por Argentina, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela e deixei o Brasil para o final, pois sabia que ia ficar”, conta o artista circense, que também é marceneiro e estuda métodos de bio-construção. 

“É a terceira vez que fico na Casa Circo Gamarra. Escolhi fixar moradia em BH porque gosto das montanhas e da riqueza cultural da cidade”, afirma o artista, que veio à capital mineira pela primeira vez durante a ocupação artística da Funarte, em 2015. “BH é um lugar onde as pessoas se juntam. Hoje, acho que conheço mais a cidade que Montevidéu”, destaca.

Mais que louvar a iniciativa de Gamarra, o uruguaio sente-se parte da construção. “Neste espaço, as pessoas chegam e conseguem se desenvolver na área que querem. É muito estimulante. É um sonho que começou com o Diego, mas que em pouco tempo incorporei como um sonho meu. Afinal, para quê construir um sonho novo se eu posso viver o sonho dele, tão bonito e potente, enquanto estou aqui?”, reflete.