Em um momento em que o assédio a mulheres é denunciado e punido, o novo filme do diretor polonês Roman Polanski – até hoje proibido de pisar nos Estados Unidos devido a um caso de estupro, ainda nos anos 1970 – abre uma curiosa e polêmica discussão que raspa nesta questão, ao mostrar diferentes papéis que são assumidos por uma mesma pessoa, alternando-se como abusador e abusado. 
 
Em cartaz nos cinemas, “Baseado em Fatos Reais” não é tão explícito na abordagem do tema. A começar pelos personagens, vividos por duas mulheres – Emmanuelle Seigner, esposa do diretor, e Eva Green. A primeira, Delphine, uma escritora de sucesso, empalidece brutalmente após ser oprimida pela segunda, Elle, que nega voz à escritora ao se fazer passar por ela.
 
Delphine é uma mulher tradicional que aparentemente se mostra infeliz – o pouco contato com a família é feito por telefone. A entrada de Elle em sua vida representa uma mudança significativa, quase como um elemento amoroso. Não faltam sugestões neste sentido. Ao mesmo tempo, a outra vira sinônimo de negação à liberdade que usufruía.
 
Arte castradora
Como se tratam de duas escritoras (Elle é uma ghost writer, o que se torna muito simbólico na proposta do filme), gradualmente Polanski insere sobre essa questão do abusador/abusado outra leitura, envolvendo as artes. A personagem de Emmanuelle, no fundo, se permite a esse papel porque a própria arte é castradora, impondo-se ao autor. Sujeitar-se a isso faz parte do jogo da criação.
 
Elle poderia muito bem ser interpretada como o homem dessa relação, já que, quando ela está presente, o namorado de Delphine fica afastado por alguma razão. É como se a “outra” se colocasse no lugar dele, como um papel que está sendo representado para se chegar a um determinado objetivo.
 
O universo que o filme se apoia é muito rico, envolvendo duplos e desejos reprimidos já trabalhados por Polanski em longas como “Repulsa ao Sexo” (1965) e “O Inquilino” (1976). No final, fica a dúvida entre a imaginação e a realidade, como em outra obra clássica do diretor, “O Bebê de Rosemary” (1968), que, por exemplo, mostra um estupro como um sonho.
 
Queda de ritmo
Uma das críticas a “Baseado em Fatos Reais” é a maneira como Polanski se estende demais na construção da relação de abuso entre as duas mulheres, em cenas muitas vezes frouxas, que já antecipam o que vem a seguir. Como o filme foi adaptado do livro homônimo de Delphine de Vigan, os ingredientes possivelmente perderam força nesta transição.
 
Mas apesar desta queda de ritmo, Polanski não filma nada por acaso. Vários elementos importantes são distribuídos ao longo da narrativa, embora não apareçam como pistas evidentes ao espectador. 
 
Estes elementos são fundamentais para a discussão–ou discussões– que o realizador pretende levantar ao final, entre elas os muitos “assédios” que entram constantemente em nossas vidas.