Apesar de o título da peça ser bastante enfático, especialmente num momento de forte discussão sobre o tema no Brasil, “Preto” não se limita a falar do racismo. A questão, evidentemente, percorre a narrativa, mas segundo o diretor Marcio Abreu, “o mais justo a ser dito é que ela parte dessas questões para construir uma estrutura que coloca em pauta a convivência com as diferenças”.
 
Em cartaz a partir de amanhã no teatro do CCBB, “Preto” é um desdobramento de “Projeto Brasil”, trabalho anterior da companhia brasileira de teatro (nome grafado assim mesmo, em minúsculas), um dos principais grupos do país no que se refere à busca pela experiência de linguagem e às questões que estão na ordem do dia, no sentido de impulsionar os seus integrantes a reagirem artisticamente. “Não é sobre temas, mas sim o resultado de experiências que estão ao redor deles, a partir de uma estrutura dramatúrgica que também reflete essas diferenças”, destaca Abreu. 
 
Formado, entre outros, por Renata Sorrah e pelos mineiros Grace Passô e Felipe Soares, o elenco tem um papel determinante nessa construção, com cada um deles oferecendo uma perspectiva muito pessoal sobre o que é ser diferente . 
 
O diretor, que criou a dramaturgia de “Preto” ao lado de Grace e Nadja Naira–que também atua na peça–ressalta que a estrutura se desdobra a partir das diferentes gerações e origens de cada integrante do grupo , e seus repertórios e classes sociais distintos. O que não quer dizer que, por ser branca e com longo tempo de carreira, Renata será a representante de um determinado grupo. “Ela é representante dela mesma. Cada um representa o que carrega atrás de si”.
 
Quem vai dividir?
Felipe Soares afirma que a sua busca foi “tentar ser eu o tempo todo”, colocando-se da forma mais autêntica possível: como homem negro e morador da periferia de Belo Horizonte , residente no bairro Serra Verde, na região de Venda Nova. “Foi difícil tentar dividir minhas questões, sobre minha experiência e de onde eu vim. Além do discurso, eu precisava dar conta disso artisticamente”, detalha.
 
Para o ator mineiro, “Preto” é , acima de tudo, a necessidade de “avançar a conversa” e da mudança de olhar, sobre a ‘pretura’, que pode ser vista como um modo civilizatório. “É respeitar a terra, conviver com o diferente. Falando diretamente para brancos e pretos, a pergunta que fazemos no espetáculo é ‘Quem irá abrir mão para dividir?’, quem tem o privilégio tem que dividir. O empoderamento negro é importante. Para uma classe ascender, é preciso que a outra mão abra dos privilégios”. 
 
Serviço : “Preto” – De amanhã até 30/4, no CCBB (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários). De segunda a quinta, às 20h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).