Ela foi criada em 1941, mas teve que esperar mais de 70 anos para ganhar um filme de ação inteiramente seu, com estreia em 2 de junho. Nos quadrinhos, a trajetória da amazona, dona do laço mágico e do avião invisível, teve a participação de desenhistas brasileiros, como o mineiro Júlio Ferreira, o paraibano Mike Deodato e a paulista Bilquis Evely, que recentemente ajudou a repaginar a Mulher-Maravilha.

“Desenhar mulheres é um pouco mais difícil. Tem que ter uma certa delicadeza. As meninas têm que ser ao mesmo tempo bonitas e naturais. Isso exige mais qualidade do artista”, observa Júlio, que desenhou a heroína numa edição da revista do “Cyborg”, há cerca de um ano. “A história era narrada em dois tempos. Num rolava a ação do presente e no outro um flashback com o Cyborg fazendo uma revelação para cada membro da Liga da Justiça, dentre eles a Mulher-Maravilha”, detalha.

Apesar de ter dividido a tarefa com outro quadrinista e desenhado dez páginas, não foi fácil pôr a princesa Diana no papel. “Existe um guia de estilo e tive problema por causa disso. Quando vi que tinha a Diana no roteiro, fui atrás de referências do uniforme dela na época. Mas era uma versão de 2011, do Jim Lee. Meu agente veio me alertar que ela não estava usando aquela roupa. Eram uns detalhes diferentes nos braceletes e no corpete, mas tive que mudar”.

Sexualizada e bissexual
Hoje a MM está menos sexualizada, diferente do mulherão que atraiu a atenção de leitores masculinos cheios de hormônios a partir da década de 90, quando ganhou o traço de Mike Deodato e triplicou a venda de gibis nas bancas. Há pouco tempo veio à tona o que era implícito: a heroína é bissexual. Desenhada por mulheres, como a brasileira Bilquis, essa mudança também repercutiu na tela grande, com Patt Jenkins se tornando a primeira mulher a dirigir um filme de super-herói.

“Dos anos 90 pra cá o mundo mudou bastante. Mais e mais meninas se interessam por supers e exigem uma representação justa. Por isso o lance da sexualização tem sido combatido e a inclusão de todas as minorias já é uma realidade na indústria. Inclusive artistas”, sublinha Júlio. 

Ele lembra que as mulheres nunca deixaram de participar das HQs de heróis, mas podia-se contar nos dedos aquelas envolvidas na parte criativa. “Normalmente assistentes, coloristas, letristas. Poucas editoras, muito poucas escritoras e quase nenhuma artista”, lamenta.

Na linha de frente
O desenhista mineiro analisa que, como todos os personagens com uma biografia tão extensa, MM exibiu erros e acertos ao longo de 76 anos de publicação. “Mas sempre vai carregar a glória de ser a primeira grande super-heroína. O tempo que estamos vivendo é realmente excitante por finalmente podermos ver o potencial das histórias das personagens femininas. Elas que estavam até agora relegadas ao papel da donzela em perigo finalmente saltaram pra linha de frente”.

REVISTA “CYBORG” – A Princesa Diana no traço do mineiro Júlio Ferreira

REVISTA “CYBORG” – A Princesa Diana no traço do mineiro Júlio Ferreira

 

Brasileiro ajudou a transformar MM em campeã de vendas

O sucesso atual de Mulher Maravilha se deve, em grande parte, ao brasileiro Mike Deodato. Nos anos 90, ele pegou uma protagonista de histórias ingênuas, relegada ao time B de super-heróis, e a transformou numa campeã de vendas. 

Um dos ingredientes foi a sexualização, hoje bastante criticada por quem não entende o contexto da época, como frisa Júlio Ferreira. Ele assinala que as editoras americanas romperam com a autocensura (Comics Code Authority), que vigorava desde os anos 50. “Com isso houve uma explosão de violência explícita e erotismo nos quadrinhos de super-heróis. O Deo foi o primeiro artista da WW a usufruir dessa ‘liberdade’”, registra Júlio, lembrando que antes do Código há havia uma sexualização.

“Ficou convencionado em algum momento que quadrinhos de supers era um produto pra meninos. Uma injustiça porque várias coisas legais puderam ser publicadas pra um público maior em virtude dessa abertura”, destaca o desenhista mineiro.

Deodato diz não levar muito sério as críticas. “A única coisa que me dá raiva é dizer que, naquele tempo, houve uma invasão de brasileiros por serem mão-de-obra barata”, afirma o paraibano, que não se arrepende da personagem que moldou. 

“Era uma coisa da época. Os anos 90 eram exagerados. Nós, que vínhamos da ditadura, queríamos mostrar tudo. Os brasileiros, acostumados com o Carnaval, com a praia, viam a sexualidade como algo normal, nada ofensivo”, salienta Deodato. 

Ele desenhou a personagem por um ano, triplicando as vendas nas bancas. “Fiz do jeito que eu queria que fosse, com uma personagem mais dinâmica, com energia, cores e violência. Antes ela era meio morta. Ninguém pôs restrição ao que estava fazendo”.

Hoje ele confessa que faria a personagem de outro jeito (“os tempos são diferentes”, justifica). O paraibano, porém, passou a não acompanhar mais a aventuras de Diana. “Como eu já fiz, acabo ficando com ciúmes e não gosto que os outros façam”, diverte-se.